Agronegócios

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Novas tecnologias para recuperar borracha

Por Evaldo Ferreira

29 Abr 2019, 23h18

Crédito: Divulgação

Quem conhece um pouco de história sabe que o Amazonas já foi o estado mais rico do país graças à exportação da borracha, deixou essa riqueza escapar ‘por entre seus dedos’ e hoje quem ainda ganha muito dinheiro com o látex extraído da seringueira (Hevea brasiliensis), como há mais de cem anos, são alguns países da Ásia.

Até que o americano Henry Ford tentou cultivar seringueiras no Pará, entre 1927 e 1945, mas uma praga, o mal-das-folhas, que nunca existiu nas plantações da Ásia, não deixou que a Amazônia voltasse a ter a hegemonia mundial na produção da borracha.

“O que muita gente não sabe é que, há ao menos 30 anos o mal-das-folhas já foi contido e nessas três décadas poderia ter se produzido muita borracha na nossa região. A borracha é uma das commodities que nunca deixou de ser impulsionadora da economia mundial”, garantiu o pesquisador da Embrapa, Everton Rabelo Cordeiro, coordenador do projeto ‘Novas tecnologias para a dinamização da produção da borracha natural no Amazonas’, que incluiu 24 municípios do Estado, hoje resumidos a Manaus, Iranduba e Maués, por meio do Pró-Rural (Programa Estratégico de Transferência de Tecnologias para o Setor Rural), apoiado pela Fapeam (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas).

“Atualmente o Brasil produz pouco mais de 200 mil toneladas/ano, de borracha. 60% disso é produzido em São Paulo. O restante sai de Minas, Bahia, Mato Grosso, Espírito Santo, Paraná. Cabe ao Amazonas menos de 1% desse total”, informou.

“A seringueira deixou de ser cultivada na Amazônia por conta do mal-das-folhas, causada pelo fungo Microcyclus ulei, e todo o esforço em produzir seringueiras na região amazônica esbarrou nessa doença que prejudica o cultivo e mata a planta por inanição. Mas isso foi no passado”, contou.

Investimento altamente rentável

Há 40 anos o pesquisador da Embrapa, Vicente Moraes, começou a pesquisar o mal-das-folhas. Há 30, através da enxertia, Vicente desenvolveu uma variedade de seringueira resistente à praga.

“Foram denominadas de seringueiras tricompostas geneticamente. O nome ‘tricomposta’ deve-se ao fato de que três partes da árvore (a base, o painel e a copa) são formadas a partir do cruzamento de espécies diferentes de plantas de seringueiras, combinadas por meio de enxertias”, explicou.

Há oito anos em Manaus, Everton deu continuidade às pesquisas de Vicente, então aposentado.

“Com base nesse procedimento iniciado por Vicente, geramos espécies de seringueiras capazes de produzir borracha com qualidade e em quantidades tão boas como as seringueiras cultivadas em outras regiões do Brasil onde não há problemas com essa doença, e que consequentemente permite rentabilidade aos produtores”, informou.

Para o pesquisador, as seringueiras resistentes ao mal-das-folhas além de apoiar o setor produtivo com a geração de renda para comunidades do Amazonas, podem atenuar os impactos agroquímicos sobre o meio ambiente com a dispensa da utilização de defensivos agrícolas para combater o Microcyclus ulei.

“O que os investidores precisam saber é que a seringueira é um investimento altamente rentável. Com seis anos de plantada, e 45 cm de circunferência, já se pode extrair o látex, sangrado semanalmente a partir daí. Atualmente no mundo se produz 13 milhões de toneladas/ano de borracha. 93% desse total vem da Ásia. O Brasil é apenas o 10º produtor mundial, com 1,5% do total. O Amazonas produz 750 toneladas/ano”, listou.   

Como há mais de 100 anos a borracha é utilizada como matéria-prima pela indústria manufatureira na fabricação de inúmeros produtos como preservativos, pneus, luvas, mangueiras, acessórios para máquinas, elásticos, calçados, enfeites, jóias, artefatos para cozinha, e diversos outros objetos.

Perspectivas futuras

Dados pesquisados pelo Idam (Instituto de Desenvolvimento Agropecuário e Florestal Sustentável do Estado do Amazonas), em 2011, mostram que existiam no Amazonas aproximadamente dois mil produtores trabalhando com a extração de látex de seringueira e uma produção de 1.200 toneladas/ano de CVP (Cernambi Virgem Prensado) que eram transformados em GEB (Granulado Escuro Brasileiro) por duas usinas de beneficiamento existentes nos municípios de Manicoré e Iranduba. Nos anos seguintes a situação se agravou e essa produção caiu bastante.

No momento existe uma tendência favorável à recuperação da atividade em decorrência do funcionamento normal da usina de Manicoré, que tem capacidade de processamento anual de 720 toneladas de GEB, e das negociações em andamento entre a empresa Ruberon, sediada no PIM (Polo Industrial de Manaus), que demanda 500 toneladas mensais direcionadas à produção de polímeros, e a Afeam (Agência de Fomento do Estado do Amazonas) para a compra da usina de Iranduba e seu imediato funcionamento cuja capacidade de produção anual é de quatro mil toneladas.

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