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Maravilhas da floresta usadas em pesquisa contra o envelhecimento e para a saúde

Quanto mais se pesquisa a flora e a fauna amazônicas, mais se descobre a riqueza que temos correndo o risco de ver desaparecer

Por Evaldo Ferreira

08 Mar 2019, 19h07

Crédito: Divulgação

Quanto mais se pesquisa a flora e a fauna amazônicas, mais se descobre a riqueza que temos correndo o risco de virar pasto para gado, abastecer madeireiras ou simplesmente ser transformada em cinzas.

A mais recente dessas pesquisas está sendo coordenada pelo doutor em farmácia, Emerson Lima, no Laboratório de Atividade Biológica da Ufam (Universidade Federal do Amazonas), com o apoio da Fapeam (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas) através do Pronem (Programa de Apoio à Núcleos Emergentes de Pesquisa) e já apresenta resultados relevantes.

“Pesquisei aproximadamente 100 espécies de frutos e plantas (cascas, raízes e sementes) como o bacuri, o açaí, o cumaru, o crajiru, a grande maioria de uso medicinal popular, em busca da comprovação de que realmente são eficazes”, disse.

“Há mais de dez anos estudo plantas medicinais e o que posso dizer é que a maioria delas realmente tem o poder da cura, senão, no tratamento de determinados males. O conhecimento empírico tem um fundo de verdade”, assegurou.

De todas as espécies pesquisadas, Emerson direcionou seus trabalhos para quatro delas, que apresentaram resultado mais satisfatório: o jucá (Libidibia ferrea), o maracujá do mato (Passiflora nitida), o piquiá (Caryocar vilosum) e o breu-branco (Protium sp.)    

O jucá é uma das plantas que mais deu resultados positivos
 

O jucá é uma árvore, da qual se utilizam as folhas e a casca, em chás; o piquiá e o maracujá do mato são frutos. Do primeiro se extrai óleo, já o segundo tem a polpa muito doce, diferente de seu parente, o maracujá comum. Antes era encontrado com facilidade nas estradas das proximidades de Manaus; o breu branco é uma resina perfumada que sai do caule de determinadas árvores da floresta.

Uma multinacional se interessou pelo breu branco
 

Creme antienvelhecimento

“Nas pesquisas, utilizamos os extratos dessas espécies. No caso do maracujá do mato, extraídos das folhas; do jucá e do piquiá, dos frutos, e todos os extratos apresentaram atividades antioxidantes, ou seja, com substâncias capazes de combater os radicais livres, que são moléculas liberadas pelo corpo responsáveis pelo envelhecimento e a morte celular. O piquiá foi o fruto que apresentou melhor potencial antioxidante. Já do breu foi isolada uma substância capaz de reduzir a obesidade. Essas substâncias bioativas podem ser aplicadas na indústria cosmética e farmacêutica com sucesso”, revelou.

A substância mais conhecida com esse potencial antioxidante é o ácido ascórbico, conhecida como vitamina C, presente em várias frutas. A aplicação dela se destaca como aditivos de alimentos, em cosméticos para tratamento da pele e em produtos de combate a esses radicais livres. O projeto de Emerson visa substituir a vitamina C por bioativos naturais em uma formulação cosmética antienvelhecimento.

“Uma empresa local já se interessou pelo resultado das pesquisas com o maracujá do mato para a produção de um creme com poder de clarear e remover manchas na pele. Através de uma parceria da Ufam com essa empresa, foi feita uma transferência de tecnologia e agora o processo está na fase de registro do produto junto a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária). Após isso, será possível colocá-lo no mercado”, falou.

“Quanto ao breu, é um produto rico em amirina que, após isolada e sintetizada, se transforma em amirona, substância excelente para se fazer perder peso. Nos nossos testes, administramos porções de amirona para as cobaias que, mesmo bem alimentadas, perderam peso sem ficarem debilitadas fisicamente ou sofrerem qualquer tipo de prejuízo em órgãos como rins e fígado”, explicou.

“Uma multinacional se interessou pelo breu branco e agora estão, eles próprios, realizando suas pesquisas que devem durar ao menos dois anos antes de lançar algum produto no mercado”, lembrou.

Equipe de 28 pesquisadores

O Pronem apoia projetos de pesquisa científica, tecnológica e de inovação propostos por grupos de pesquisa emergentes, formados por pesquisadores com destaque na sua área de conhecimento e com experiência na coordenação de projetos, de modo a permitir a consolidação de linhas de pesquisa prioritárias para o Amazonas e induzir a formação de novos núcleos de excelência em pesquisa no Estado.

O projeto coordenado por Emerson Lima possibilitou a formação de recursos humanos. No total, seis alunos de doutorado, oito de mestrado e 13 graduandos receberam orientação e participaram do estudo científico. Além disso, 20 artigos científicos, ligados diretamente à pesquisa, foram publicados.

“Acreditamos que foi um projeto exitoso com publicação de artigos científicos, formação de mestres e doutores e com produtos que podem gerar renda para o Estado”, enfatizou.

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