Polo Industrial de Manaus

COMPARTILHE

Lideranças se revoltam com ataques de Paulo Guedes contra a ZFM

Segundo o ministro, a economia brasileira não pode ficar refém por conta da ZFM e da manutenção das vantagens comparativas proporcionadas ao polo e que são amparadas pela Constituição Federal

Por Marcelo Peres

19 Abr 2019, 11h45

Crédito: Divulgação

As declarações do ministro da Economia, Paulo Guedes, contra a ZFM (Zona Franca de Manaus) aumentaram as apreensões de lideranças políticas e empresariais em relação à sobrevivência do modelo de desenvolvimento. Em entrevista a poucos menos de dois dias à emissora Globonews, o superministro do presidente Jair Bolsonaro (PSL-SP) advertiu que os incentivos fiscais às empresas do Amazonas podem ‘ferrar’ o Brasil e bastaria, portanto, "minar" essas concessões para equilibrar a situação fiscal do País.

Segundo o ministro, a economia brasileira não pode ficar refém por conta da ZFM e da manutenção das vantagens comparativas proporcionadas ao polo e que são amparadas pela Constituição Federal. Em outras palavras, Guedes dá a entender que o Brasil não pode ser eficiente com as indústrias de Manaus, avaliam especialistas. As reações de lideranças empresariais e políticas do Amazonas foram imediatas.

As primeiras em defesa da Zona Franca vieram do senador Eduardo Braga (MDB-AM) e do deputado Sidney Leite (PSD-AM), recém-eleito para a Câmara Federal. Para Braga, Guedes avalia o modelo como um neófito, sem nenhum conhecimento de causa, e não se dá conta de que o projeto econômico é hoje o mais bem-sucedido do País. Sem esconder sua revolta com as declarações e nem economizar nas palavras ácidas, o senador desafiou hoje a maior voz do governo Bolsonaro a um debate aberto e público. “Ao contrário, ministro Paulo Guedes, assegurar as vantagens comparativas da ZFM não significa ferrar o Brasil, mas sim proteger um dos mais bem-sucedidos programas de preservação ambiental do mundo, além de resguardar a vida de milhões de cidadãos e das futuras gerações”, disse Braga, que emendou: “Nós, amazônidas, lançamos ao senhor um desafio: nos chame para um debate aberto e aprenda conosco a fazer a economia crescer sem colocar em risco esse patrimônio que por incrível que pareça, também é seu”.

De acordo com Braga, a manutenção das atividades da ZFM é o melhor mecanismo criado para manter as florestas em pé. “É o nosso maior patrimônio, tanto do Amazonas quanto do resto do Brasil”, avalia.

Segundo o deputado Sidney Leite, o  ministro dá provas de que não entende nada de ZFM. Ele advertiu que a bancada de parlamentares do Amazonas não irá aceitar passivamente que Guedes não considere o Amazonas “como parte do Brasil”. “Quanto de forma individual, como em grupo, os deputados do Estado vão lutar diturnamente para que o modelo econômico da região não seja extinto, como planeja o ministro da Economia”, disse o parlamentar. Para Leite, o mais revoltante nas declarações é que Guedes deixou claro, na entrevista à Globonews, às ameaças ao projeto quando afirmou que “não precisa mexer na ZFM como um todo para mudar o cenário econômico, mas basta reduzir a zero todo os impostos como o II (Imposto de Importação) e o IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados)”.

“Tem maior ameaça que esta?”, questionou. “Se isso acontecer, acaba com a Zona Franca. Isso mostra falta de comprmisso com o nosso Estado e deixa evidente sua intenção de extinguir de vez o modelo econômico”, acrescentou Leite, também emendando; “Não vamos permitir. Vamos lutar, em grupo e também nas comissões às quais participamos como membros na defesa do nosso polo industrial”. Para especialistas e estudiosos do modelo, as garantias dadas pelo governo do presidente Jair Bolsonaro à manutenção dos benefícios fiscais da Zona Franca de Manaus não passam de falácias e exigem, portanto, uma mobilização constante de todos os segmentos da indústria do Amazonas e ainda da própria sociedade como um todo em defesa do polo de Manaus.

Alguns chegam a classificar as constantes investidas contra a ZFM como “uma relação de amor e ódio” pelo modelo econômico. Em uma hora, são dadas as garantias por Bolsonaro, em outra, vem novo grande personagem do governo e desmente tudo que o presidente garantiu. “É como samba de crioulo doido”, classificou uma importante liderança do Amazonas, que preferiu não ter o nome mencionado na matéria.

Segundo o economista Ailson Resende, que acompanha as atividades da ZFM desde a sua criação nos anos 1960, a ZFM é hoje um modelo supeavitário e chega a contribuir em pelo menos R$ 10 bilhões anuais para as contas do governo federal, apesar do regime de incentivos fiscais. “Como um projeto dessa envergadura, considerado o mais bem-suceddido  do Brasil, pode mesmo ferrar o País”, argumenta o especialista ao comentar as declaraões de Paulo Guedes.

Mais otimista, o economista e professor José Alberto Machado diz que dificilmente o novo governo pode representar uma ameaça à Zona Franca. Para ele, o fato de a vice-presidência da República (leia-se Hamilton Mourão) ter um descendente de amazonenses no Planalto já é dado muito positivo para garantias da preservação do projeto econômico. “Sem contar que ZFM foi criada pelos militares e não vejo como eles possam ameaçar o regime”, diz.

 

Veja Também

Frente & Perfil

Paulo Guedes ataca ZFM

19 Apr 2019, 12h56
Frente & Perfil

Uma Ferrari intriga Manaus

23 Apr 2019, 08h53