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Indústria regional de alimentos mantém público fiel

Por Marcelo Peres

24 Out 2019, 15h57

Crédito: Divulgação

A indústria tradicional de alimentos parece não acompanhar a evolução do segmento em Manaus, mesmo hoje convivendo com um mercado de pelo menos 2,5 milhões de consumidores em potencial, que antes chegavam a 300 mil na cidade em outras épocas. Nos últimos anos, as empresas regionais desse setor vêm mantendo a mesma produção considerada ainda incipiente, que atende mais os clientes da capital e dos municípios do interior, sem extrapolar os limites do Estado.

E está hoje fora de cogitação entre as empresas tradicionais pensar em exportar as massas produzidas no Amazonas para outros Estados. Mesmo porque esses produtos enfrentam uma acirrada concorrência de gêneros alimentícios importados das regiões Sul, Sudeste e Nordeste.   

Mas se por um lado, os biscoitos, bolachas e massas regionais não têm condições de competir em pé de igualdade com os produtos importados, por outro, eles possuem um público fiel que mantém a tradição de consumo desde os tempos mais remotos, que é um grande diferencial na disputa acirrada por clientes no mercado regional.

Outro grande trunfo dos alimentos regionais em relação aos importados é na questão da logística. Enquanto as grandes empresas concentram a venda em supermercados e em outros estabelecimentos de maior porte, o empresário local pode distribuir o seu produto nas regiões mais distantes do centro de consumo, como bairros da periferia, onde pequenas mercearias, mercadinhos e revendedores individuais comercializam os seus produtos.

E outra coisa: para levar as mercadorias até a periferia não custa nada aos revendedores. “Mantemos o regime de pronta-entrega. Aí está o nosso grande diferencial no mercado consumidor, que oferece uma boa margem de vantagem ao empresariado local, sem contar ainda com a fidelidade mantida pelos consumidores. São biscoitos, bolachas e massas tradicionais consumidas há muitos anos em Manaus, cuja tendência passou de geração para geração”, avalia o presidente do Sindicato da Indústria de Massas Alimentícias e Biscoitos de Manaus, Américo Esteves.

Ele também é proprietário de uma das três empresas que fabricam massas e biscoitos em Manaus e lideram o segmento de produção regional – Rainha, Modelo e Lisbomassa. Segundo Américo Esteves, hoje existe uma concorrência desleal em relação aos gêneros alimentícios importados de outras regiões.

De acordo com o empresário, os produtos que vêm de outros Estados têm a mesma isenção do IPI (Imposto de Produtos Industrializados), gerando uma concorrência desleal no mercado consumidor. “E essa desigualdade só é amenizada porque mantemos um público fiel, que prefere comprar os nossos produtos em relação aos importados”, acrescenta Esteves. “Nós sofremos muito com os produtos vindos do Nordeste e do Sul porque, como são alimentos, não pagam também IPI”.

 Outro grande gargalo para vender os produtos regionais é que as grandes redes revendedoras, como Carrefour e Atacadão, preferem importar os gêneros alimentícios de outros Estados, comprando em alta escala. “Não adianta oferecer porque eles se recusam a comprar a nossa produção”, afirma Esteves.

Expansão

Mesmo assim, tanto a Rainha, a Modelo e a Lisbomassa, que lideram a produção regional, esperam crescer pelo menos 20% no mercado nos próximos anos. Essa estimativa é feita pela indústria regional com base na constatação de que as bolachas, biscoitos e massas locais são alimentos que podem ser consumidos mais ‘fresquinhos’, ao contrário dos concorrentes importados.

“Mantemos os estoques quase diariamente, sem acumular os produtos nas prateleiras, o que deixa os alimentos mais saborosos porque eles são consumidos logo que saem da fábrica. Os importados não, já chegam com tempo maior de produção e acabam perdendo o sabor e a contextura. Aí também está o grande diferencial dos produtos regionais”, avalia o gerente geral da fábrica Rainha, Osenildo Lima. “É mais gostoso comer um biscoito e uma bolacha mais fresquinhos”, acrescenta ele.

Além disso, o produto regional dispensa mais aditivo porque é consumido em menor tempo, ao contrário do importado que enfrenta viagem por estradas para chegar em Manaus e ficar disponível ao consumidor. 

Outro gargalo para os produtos aqui fabricados são os custos do trigo que é considerado uma commoditie e cujos preços acompanham a oscilação da cotação do dólar. “A concorrência é muita acirrada”, diz Américo Esteves.

A Rainha produz 660 toneladas de massas por mês, segundo o gerente geral Osenildo Lima. E a fábrica opera hoje com pelo menos 90 funcionários envolvidos na produção e na distribuição dos produtos, no sistema de pronta-entrega. E o faturamento mensal é superior a R$ 1 milhão.

A Modelo tem, em média, 50 funcionários, com uma produção de 240 toneladas de massas mensalmente. As fábricas da indústria regional detêm hoje aproximadamente 10% da fatia de mercado. E as estimativas são de crescimento nos próximos anos, apesar da forte concorrência com os produtos importados.

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