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Indústria 4.0 deve se consolidar até 2020 na Zona Franca de Manaus

Automação industrial tem impactado diretamente na redução da contratação de novos trabalhadores no Estado

Por Marcelo Peres

28 Fev 2019, 10h32

Crédito: Divulgação

A indústria 4.0, a quarta revolução industrial, já chegou ao PIM (Polo Industrial de Manaus) e até 2020 estará plenamente consolidada. É o mais alto nível de automação que promete produtos extremamente arrojados, com qualidade de excelência e uma maior competitividade dos itens made in ZFM no mercado internacional.

Segundo especialistas, a própria Fieam (Federação das Indústrias do Estado do Amazonas) vem avaliando constantemente os impactos desse conceito de produtividade que permeará e ditará os rumos do futuro tecnológico no Amazonas. “Vai exigir uma maior qualificação profissional, mas terá um ganho abissal em termos de produtos mais competitivos, à altura dos eletroeletrônicos oriundos de países do primeiro mundo como Estados Unidos, Japão e países da comunidade europeia”, avalia o economista e consultor Ailson Resende, que estuda a ZFM há mais de 30 anos. “Esse avanço tecnológico deixará um legado para as próximas gerações no Estado”, acrescenta o especialista.

A quarta onda tecnológica vem com produtos inteligentes e a meta é chegar ao desenvolvimento de mecanismos que promovam cada vez mais interações com os humanos. Então, os robôs, além de trabalhar sem cansar, podem falar e até interagir cognitivamete com as pessoas. E isso já está acontecendo, não só nos países mais avançados como também em indústrias instaladas no PIM,  que concentra pelo menos 500 empresas em seu parque industrial no Estado. Enquanto o empresariado festeja a oportunidade de dispensar mais  mão de obra com a automação arrojada que começa a invadir as linhas de produção, outros segmentos (como o de trabalhadores) se preocupam com os impactos sociais que essa tecnologia deixará num mercado de trabalho cada vez mais restrito, agravando o problema do desemprego e as questões de violência. “Ela é muito eficiente - para não dizer excelente -, mas geradora de poucos empregos. Com certeza, quem não se aperfeiçoar não terá condições de acompanhar toda essa evolução tecnológica ”, explica Ailson Resende.

Consequências

Extremamente automatizada, a nova indústria deverá reduzir consideravelmente o número de pessoas empregadas no Distrito Industrial, que já chegou a ter aproximadamente 137 mil trabalhadores não faz muito tempo, preveem estudiosos do modelo ZFM. Hoje, porém, com a crise econômica e o aprimoramento da tecnologia os empregos caem drasticamente. Segundo os últimos indicadores industriais da Suframa (Superintendência da Zona Franca de Manaus), atualmente as empresas empregam apenas 87 mil trabalhadores, o que agrava enormemente as questões sociais no Amazonas.  E sem oportunidades de ocupação, num mercado cada vez mais qualificado, trabalhadores são obrigados a se submeterem ao sistema informal para sobreviver. E, no desespero, muitos optam pela violência, engrossando as estatísticas sobre assaltos, latrocínios e homicídios.

Segundo o presidente do Sindmetal (Sindicato dos Metalúrgicos do Amazonas), Valdemir Santana, trabalhadores demitidos do Distrito Industrial estão vendendo hoje quentinhas nas principais ruas de Manaus para sobreviver. E tão cedo não perspectiva nenhuma para esses desempregados. Ele acrescenta que outra agravante é a reforma trabalhista, que permite às empresas contratar mais pessoal temporário como uma estratégia para fugir  dos encargos sociais, extremamente caros às indústrias. “Enquanto isso, o empresariado aumenta o faturamento em detrimento do trabalhador”, alfineta o sindicalista. “Quase ninguém mais quer contratar pessoas com carteira assinada. A maioria trabalha como freelancer. A nova legislação dificulta ainda mais a vida do trabalhador”, protesta Santana.

Mais qualificação profissional

Enquanto alguns estudiosos preveem uma hecatombe no mercado de trabalho com a chegada da quarta revolução industrial, outros veem grandes benefícios porque a nova onda tecnológica exige que os trabalhadores busquem uma constante qualificação profissional. “Esses argumentos não passam de falácias. Quando os robôs começaram a aparecer nas linhas de produção não faz muito tempo, o alarde foi grande. Ao contrário, a tecnologia inteligente tornará os produtos da Zona Franca mais competitivos, beneficiando a todos os segmentos da sociedade”, avalia o o vice-presidente do Sinaees (Sindicato da Indústria de Aparelhos Elétricos, Eletrônicos e Similares de Manaus), Celso Piacentini.   Além disso, ele diz que os encargos sociais impactam significativamente nas contas das empresas, obrigando-as a admitir e demitir trabalhadores de acordo com as respostas dos mercados consumidores. “A mão de obra é extremamente cara no Brasil, mas não vejo um desastre como alardeiam especialistas com a chegada da quarta revolução industrial”, argumenta o executivo.  

Mas na visão de líderes sindicalistas que defendem direitos de trabalhadores os problemas do desemprego devem se agravar nos próximos anos, caso os  governos não atentem sobre os impactos sociais causados pela tecnologia cada vez mais inteligente e automatizada, dispensando mais mão de obra para ser operada.

Necessidade de maior competitividade

Para o economista José Alberto, um estudioso do modelo ZFM e grande referência do setor no Amazonas, a automação industrial tem impactado diretamente na redução da contratação de novos trabalhadores no Estado. “ É sensível o impacto do crescimento da utilização de robôs nas linhas de produção das empresas. Com isso, menos trabalhadores passaram a ser contratados, agravando profundamente a situação do desemprego”, ele diz. “Além disso, a reforma trabalhista também impactou no mercado de trabalho devido às novas regras que norteiam o setor”, acrescenta o especialista.             A nova era tecnológica divide as opiniões entre especialistas, mas uma coisa é certa: ela é extremamente necessária para fortalecer ainda mais a Zona Franca num mercado de consumo cada vez mais competitivo, onde os clientes buscam constantemente produtos com inovação arrojada e que facilitem a vida dos seres humanos. E não há como fugir desse inovação e os que não acompanharem essa evolução podem ser engolfados pela concorrência acirrada, prevê o economista Ailson Resende.

Segundo a CNI (Confederação Nacional da Indústria), as empresas brasileiras ainda estão se familiarizando com a digitalização e com os impactos que essa nova tecnologia pode ter sobre a competitividade. Alguns especialistas são mais céticos sobre a evolução, considerando que o Brasil também está pouco preparado para adotar em larga escala a indústria 4.0 por falta de questões estruturais, educacionais e culturais.

 

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