Economia

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Incerteza da economia continua em alta, aponta FGV

Por Marco Dassori

08 Out 2019, 09h02

Crédito: Divulgação

O contencioso comercial entre Estados Unidos e China, as divergências de interesses regionais e contradições em torno da Reforma Tributária, bem como a lenta recuperação da economia brasileira empurraram o Indicador de Incerteza da Economia da FGV (Fundação Getúlio Vargas) para cima, na passagem de agosto para setembro.

O dado é nacional, mas fontes ouvidas pelo Jornal do Commercio esboçaram preocupação maior em decorrência da fragilidade do modelo ZFM (Zona Franca de Manaus) em um momento em que as regras do jogo estão novamente sendo redefinidas e a economia patina sem conseguir retomar o ritmo de crescimento necessário para fazer o país emergir da crise.

O índice da FGV avançou 2,7 pontos no período e chegou a 116,9 pontos – em uma escala de 0 a 200 pontos –, número considerado elevado em termos históricos. O número leva em conta dois componentes: mídia (frequência de notícias com menção à incerteza na imprensa) e expectativa (a partir das previsões de analistas econômicos). O componente “mídia” subiu 1,5 ponto e chegou a 115,9 pontos, enquanto a “expectativa” aumentou 5,8 pontos.

De acordo com o pesquisador da FGV Aloisio Campelo Jr., a alta do indicador foi motivada principalmente por questões externas, como a tensão comercial entre Estados Unidos e China, com a possibilidade de uma desaceleração mais forte da economia mundial em 2020. Fatores internos também contribuíram para a maior desconfiança, a exemplo da Reforma Tributária e das dúvidas quanto ao ritmo de crescimento da economia brasileira.

Insumos e alíquotas

Vice-presidente da Fieam e presidente do Sindicato das Indústrias Metalúrgicas, Mecânicas e de Material Elétrico de Manaus, Nelson Azevedo observa que, embora o dado da pesquisa seja nacional, as incertezas do país se refletem com mais força localmente, dado que a produção da ZFM é quase que inteiramente concentrada no mercado doméstico. “A disputa comercial entre Estados Unidos e China reduz as transações internacionais e impacta o custo dos insumos industriais”, comentou.

Azevedo ressalta que ainda há muita apreensão em torno da Reforma Tributária e dos próximos movimentos do Ministério da Economia, que também costura o seu projeto. “Toda hora tem uma ameaça e isso gera muita dúvida e incerteza. “Estamos amparados pela Constituição, mas nem precisa cortar incentivos para reduzir ou acabar com as vantagens da Zona Franca de Manaus. Basta mexer nas alíquotas”, alertou.

O dirigente pondera que a indústria incentivada de Manaus aguarda um segundo semestre mais forte e que segmentos como o de bens intermediários e finais do polo de duas rodas, bem como a linha de manufatura de equipamentos de ginástica (fitness), vêm apresentando números robustos de produção nos últimos meses. Destaca também os esforços da Suframa e do governo estadual para fortalecer a agroindústria local, especialmente em Rio Preto da Eva.

Fogo amigo

O presidente em exercício da Fecomercio-AM (Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado do Amazonas), Aderson Frota, também se diz preocupado com a Reforma Tributária e a visão majoritária em relação às vantagens da ZFM, apesar desta devolver R$ 15 bilhões dos R$ 25 bilhões da renúncia fiscal de tributos federais, enquanto a indústria automobilística de São Paulo absorve inteiramente os R$ 52 bilhões que recebe da União.

Frota aponta ainda que a sinalização de uma nova rodada de “fogo amigo” no âmbito do governo federal e nas relações do Executivo como o Legislativo traz incertezas ao empresariado do comércio amazonense. O mesmo pode ser dito do anúncio do Ministério da Economia de tratar os empreendedores com maior rigor fiscal para compensar o déficit orçamentário do país.

“Tivemos esse choque entre poderes no primeiro semestre e o resultado se refletiu nos números dos setores. Será que vai começar tudo de novo? A economia está se recuperando em um ritmo muito lento. Não precisamos que ela apenas cresça, como também se reestabeleça. Outra questão que preocupa é que o Ministério da Economia manifestou recentemente a intenção de colocar alíquotas mais severas para as micro e pequenas empresas, que são justamente as maiores geradoras de empregos no Brasil”, encerrou Aderson Frota. 

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