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Grupo pretende cobrir 701 km da BR-319 a pé em protesto

Por Evaldo Ferreira

08 Ago 2019, 10h43

Crédito: Divulgação

Ano passado a Manaus-Porto Velho, ou ainda rodovia Álvaro Maia, mais conhecida como BR 319, completou 50 anos do início de sua abertura e há 30 anos, ao ser considerada intrafegável em quase metade de sua extensão de 885 km, se tornou o símbolo do descaso do Governo Federal em relação ao Norte ao deixar falar mais alto os interessados na não existência da estrada.

No próximo dia 10, sábado, integrantes do MBL Amazonas (Movimento Brasil Livre) irão percorrer 701 km da BR 319, a pé, de Humaitá a Manaus, para chamar a atenção, mais uma vez, do Governo Federal, sobre a importância da trafegabilidade da estrada para que Manaus possa atingir o resto do país com mais rapidez, inclusive barateando o custo do frete do que é produzido aqui. 

“Em abril, quando da vinda a Manaus do ministro Tarcísio Gomes, da Infraestrutura, idealizamos a caminhada, inclusive ele mostrou interesse em percorrer toda a estrada para verificar in loco como ela está. O ministro está sabendo dessa nossa caminhada, pois lhe entregamos um manifesto, em mãos, e ele afirmou que na nossa chegada a Manaus, no início de setembro, estará nos aguardando”, falou Jhony Souza, líder do MBL Amazonas.

“Já andei pela BR 319 várias vezes, desde garoto, com meu pai, e sei da importância dela para a nossa região, bem como do interesse de grupos poderosos de empresários e políticos para que a estrada continue intrafegável”, disse.

Abandonada há 30 anos

Há mais de uma semana, integrantes do MBL Amazonas, de Manaus, estão em Humaitá, junto com integrantes do Movimento de lá, organizando a caminhada. Até agora o grupo está composto por 18 pessoas, sendo três mulheres.

“Outras pessoas de Manaus também estão interessadas na caminhada e devem chegar até sábado. E colegas de Pernambuco e do Rio Grande do Sul informaram que desejam se unir ao nosso grupo na empreitada de 701 km, floresta adentro”, informou.

A BR 319 foi construída e asfaltada entre 1968 e 1973 durante o governo militar cujo slogan para a Amazônia era ‘integrar para não entregar’, indo de encontro ao interesse de potências estrangeiras que, desde a descoberta desta rica região, e até hoje, sempre quiseram explorá-la.

A inauguração oficial da BR 319 aconteceu em 27 de março de 1976 e nos anos que se seguiram foi intenso o tráfego de veículos, ônibus levando e trazendo passageiros, caminhões transportando cargas principalmente do e para o Polo Industrial de Manaus. Uma viagem de barco entre Manaus e Porto Velho, que durava dois dias, foi reduzida para oito horas. Começava ali o interesse em desestabilizá-la. Em 1988 ela foi considerada sem condições de segurança com centenas de quilômetros sem vestígios do antigo asfalto. Além do Amazonas, Roraima também, via BR 174, depende da BR 319, mas a burocracia brasileira emperra o reasfaltamento de cerca de 420 km, no centro da estrada. Burocracia e desejos mais escusos. Moradores de comunidades e vilas existentes ao longo da via contam que já viram partes boas da estrada sendo dinamitadas por pessoas durante a noite.

Dinamitando a estrada

“Durante todo o trajeto seremos acompanhados por um caminhão de apoio que levará alimentos e água. Iremos parar nas comunidades e vilas para conversar com os moradores para que eles contem histórias sobre a estrada. Tudo será filmado para a posterior produção de um documentário”, lembrou.

“Em conversas anteriores, foram estes moradores que contaram ter visto pessoas dinamitando partes boas da BR 319, à noite”, completou.

“Existem pessoas nessas localidades que nunca foram à uma cidade, tendo nascido e vivido até agora isoladas na estrada”, informou.

O grupo de caminhantes terá pessoas de várias idades e formações como médico e socorristas e o apoio do Exército para qualquer eventualidade. O mais novo é o estudante Eliel Lima, integrante do MBL em Humaitá, de 19 anos. O mais velho é o pai de Jhony, Delci Muniz, de 63 anos, um profundo conhecedor da BR 319.

“Às 17h, do dia 10, sábado, iremos acampar no quartel do 54ª BIS (Batalhão de Infantaria de Selva). Domingo, assim que a corneta soar no quartel acordando os soldados, nós também estaremos a postos e partiremos rumo a Manaus”, avisou.

O grupo pretende caminhar uns 30 km por dia, desde a hora em que o sol nascer até o momento em que se por, quando então armarão barracas para o descanso em colchões de ar.

“Todo o pessoal foi instruído a se vacinar contra malária e antitetânica, e fazer exames médicos para comprovar que estão em forma. A pior parte é a que eu chamo de ‘centrão’ bem no meio entre Manaus e Humaitá, com cerca de 420 km de puro barro. Na época das chuvas, só lama; no verão, só poeira”, contou.

“Calculamos chegar a Manaus no dia 1º de setembro, domingo, na Ponta Negra, com uma grande recepção preparada pelo MBL, inclusive com a presença do ministro Tarcísio Gomes, do deputado Kim Kataguiri e do vereador Fernando Holiday.

Em tempo. Na madrugada anterior a esta entrevista, o caminhão do MBL estacionado em Humaitá, foi atingido por pedras tendo seus vidros sido estilhaçados.                          

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