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Grafite sai dos guetos, recebe aceitação e gera negócios em Manaus

Grafitar e customizar geram uma economia criativa desenvolvida a partir do movimento hip hop

Por Evaldo Ferreira - evaldo.am@hotmail.com

07 Fev 2019, 18h34

Crédito: Evaldo Ferreira

Há algum tempo as letras rabiscadas das pichações nos muros e paredes de Manaus vêm sendo substituídas por belos desenhos multicoloridos, os grafites, feitos por artistas anônimos, quase todos muito jovens que descobriram exatamente através das pichações, que possuíam um talento nato para a arte. Seus imensos murais, principalmente em viadutos, são verdadeiras obras de arte.

O interessante desses jovens é que eles não têm, ou tiveram, professor, ou sequer frequentaram algum curso de arte, e já perceberam que podem ganhar um bom dinheiro com o que fazem, bastando apenas ter algumas latas de spray à mão.

Fábio Silva, então adolescente com 14 anos, pichava as ruas do bairro onde mora, Ouro Verde, e outros mais distantes até que um dia, o comercial de um refrigerante chamou sua atenção.

“No comercial, jovens grafitavam belos desenhos nas paredes e eu pensei: será que eu consigo fazer desenhos iguais àqueles?”, lembrou.

Nos anos seguintes, Fábio tentou aprimorar suas pichações, melhorando as letras e incluindo desenhos. “Essa foi a parte mais difícil: aprender a dominar a tinta que sai do spray. Foram várias tentativas até acertar”, contou.

Em 2014, então com 21 anos, Fábio tentou seu vôo mais alto. Grafitou numa das paredes de seu pequeno quarto a cabeça de um cavalo, fotografou e publicou nas suas redes sociais. “Aí começou a aparecer gente interessada no meu trabalho. De lá até aqui acredito que meus desenhos só melhoraram e eu não parei mais de receber pedidos de novos grafites, dos mais diversos tamanhos e assuntos, em todo tipo de estabelecimento comercial”, disse.

Customizar dá uma renda extra

Mesmo sem nunca sequer ter lido um livro sobre os grandes mestres da pintura, Fábio classifica sua arte como realista. “Pego uma foto e consigo copiá-la com perfeição no maior tamanho possível. Aprendi o que eu sei vendo na internet e observando outros grafiteiros aqui em Manaus. Ocorre que existem vários grafiteiros fazendo seus trabalhos na cidade e quase nenhum costuma contar os seus segredos para os outros, então a gente tem que aprender observando”, entregou.

“Tenho grafites espalhados por toda a cidade. Fotográfo e os guardo no meu celular porque sei que esse tipo de arte tem um tempo de vida muito curto. Pelo fato de serem feitos em espaços na rua, o sol e a chuva os destroem com o tempo, mas o grafite é isso mesmo. É uma arte que se acaba em si mesma”, filosofou.

“Já fiz um mural de 3m x 6m e desenhei num muro de 3m x 10m. Foram os maiores que pintei até hoje, mas se tiver espaço, a gente encara”, brincou.

Em 2018, Fábio participou da Virada Cultural, evento organizado pela FAS (Fundação Amazonas Sustentável), no Largo de São Sebastião, onde se reuniram vários artistas produzindo e vendendo seus trabalhos ao vivo. Foi lá, pela primeira vez que ele se viu cercado por diversos artistas e aprendeu que sua arte poderia ser expressada em vários outros lugares que não somente os muros e paredes.

“Hoje eu tenho telas à venda no Ateliê Etnia, da Rosa dos Anjos, na rua Tapajós, ao lado da igreja de São Sebastião, e comecei a customizar kombis, motos, capacetes e camisas. Camisas quantas eu pinto, eu vendo, inclusive as que estou usando, as pessoas pedem, e eu vendo”, falou.

“O maior problema que eu percebo nesse meio de quem faz grafite é o cliente querer pagar o que você cobra. Eles sempre acham que está caro, mas não está, sem falar que é um trabalho de arte, e não é qualquer pessoa que sabe fazer”, esclareceu.

“Calculo o que vou gastar de material, transporte, alimentação, dias de trabalho e se vou precisar de ajudante, aí chego no custo final, que pode começar por uns R$ 2 mil”, afirmou.

Inegável contribuição do hip hop

Na casa simples onde mora, com os pais (o pai é dono de um mercadinho), Fábio é o exemplo de como a arte pode direcionar o jovem para um bom caminho. Seu ajudante mais fiel, André, de apenas 20 anos, foi quem o levou a expor no Largo de São Sebastião. “Quando eu pego um trabalho grande, é ele quem me ajuda nas cores, e se o trabalho for muito grande, ainda chamo outros quatro ‘moleques’, para ajudar”, disse.

Sem se dar conta do talento que possui, Fábio nem sabia que existem faculdades de artes tanto na Ufam quanto na UEA, mas sabe que precisa se aprimorar.

“Sempre tem gente querendo trabalho, mas o mercado é muito concorrido. Precisamos estar à frente dos outros”, ensinou.

Para o artista plástico, e diretor de museus da SEC, Turenko Beça, um apaixonado pelo grafitismo, apesar da grande quantidade de jovens pichando a cidade, são raros os talentos como Fábio Silva. “A maioria são jovens, mas existem muitos pais de famílias, e garotas também, realizando bons trabalhos. É inegável a contribuição que o movimento hip hop dá para a sociedade, promovendo uma colocação social incrível dos jovens de várias zonas menos abastadas da cidade, inclusive ‘rolando’ uma economia criativa através de objetos por eles customizados”, lembrou.

Desde 2011, Turenko vem realizando vários eventos sob a temática do grafite, como o Volts, Jungle Colors 1 e 2, Utopia e, ano passado, Filhas da Rua.