Polo Industrial de Manaus

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Exportações de motocicletas em xeque com crise argentina

Por Antonio Parente

27 Abr 2019, 06h41

Crédito: Divulgação

A medida econômica radical tomada no início do mês pelo presidente argentino, Mauricio Macri, em congelar os preços para conter a alta de 4,7% da inflação do país, pode acentuar ainda mais o entrave das exportações de motocicletas produzidas do PIM (Polo Industrial de Manaus). Segundo dados do MDIC (Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços), entre janeiro e abril de 2018, o Amazonas exportou  U$ 44.7 milhões em motocicletas para a Argentina. Entre janeiro e abril deste ano foram U$ 6.1 milhões, uma queda de U$ 38,6 milhões. A inflação acumulada nos últimos 12 meses na Argentina já supera 54%.

Segundo análise de especialistas, pelo fato do PIM possuir índices baixos de exportação atendendo mais o mercado interno brasileiro, a crise na Argentina vai afetar mais o setor de duas rodas. Segundo dados do portal de estatísticas de comércio exterior Comex Stat analisados pela Abraciclo (Associação Brasileira dos Fabricantes de Motocicletas, Ciclomotores, Motonetas, Bicicletas e Similares), a Argentina foi o principal comprador de motocicletas brasileiras no primeiro trimestre, com 3.832 unidades, 37,7% do total. Em segundo lugar ficaram os Estados Unidos, com 2.224 unidades e 21,9% de participação, e em terceiro o Canadá, 1.488 unidades e 14,7% de participação.

Em março a Argentina manteve a liderança com 2.660 motocicletas compradas do Brasil, com 53,2% do total, seguida pelo Canadá, com 988 unidades e 19,7% de participação, e pelos Estados Unidos, com 608 unidades e 12,2% de participação. Para o economista Farid Mendonça Júnior,  devido às incertezas que o modelo vive e a lenta retomada da economia, a situação do país vizinho preocupa.

“Todas as vezes que um país está em crise é natural que as importações caiam, pois a produção do país cai, o desemprego aumenta e  o poder de compra da população diminui. Se o poder de compra/renda da população diminui, teremos menos consumo e, portanto, menos importações. Menos importações, neste caso, por parte da Argentina. Isto acontece principalmente com produtos que não são essenciais ou tão essenciais. Por exemplo, moto não é essencial. Dá pra adiar a compra”, explicou

De acordo com o economista Ailson Rezende, quando é decretado o congelamento de preços, o governo reduz as importações, afetando diretamente os parceiros que fornecem bens e serviços para o país em crise. Conforme dados do Mdic, além de motocicleta, a Argentina exporta do Brasil outros produtos como máquinas para uso bancários, aparelhos de escritórios, lâminas de barbear de segurança, navalhas e aparelhos de barbear e aparelhos receptores de radiodifusão.

“A crise na Argentina comprometeu o poder de compra da população e com isto reduziu o consumo. Durante as crises econômicas, a população dá prioridade aos produtos básicos: alimentação, habitação, vestuário, transporte e educação”, complementou.

O setor já havia registrado uma queda no primeiro trimestre do anos com 11.382 motocicletas vendidas para a Argentina. Um recuo de 51,2% ante mesmo período de 2018 (23.320 unidades), segundo dados da Abraciclo. No primeiro trimestre foram exportadas 11.382 motocicletas, recuo de 51,2% ante mesmo período de 2018 (23.320 unidades). Em março o volume embarcado foi de 3.525 unidades, redução de 54,5% na comparação com o mesmo mês de 2018 (7.747 motocicletas).

Na visão de Farid, além dos produtos produzidos na Zona Franca de Manaus não terem poder para competir no mercado de exportações, o modelo ainda sofre muitas dificuldades em participar dos acordos comerciais do país. “Tem a questão do tratamento da Zona Franca de Manaus como se fosse um terceiro país. O modelo geralmente fica fora dos acordos comerciais celebrados pelo Brasil. Justamente por ser uma área de livre comércio. Como o modelo  não entra nestes acordos, o valor para os países importarem da gente muitas vezes não compensa. Se você for por exemplo a Letícia (Colômbia), fronteira com Tabatinga, você vai perceber que tem muita coisa importada da Ásia. Produtos que os colombianos,peruanos e bolivianos, preferem importar de outros países do que o Brasil. Além disso, existe também uma histórica relação de os países conviverem de costas pros outros. Países amazônicos vivendo de costas pra eles mesmos. Isso é complicado”, finalizou.

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