Opinião

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Estudar pouco, mas focado

Nos concentramos naquilo que nos interessa, porque o interesse é acionado pela emoção

Por Daniel Nascimento

18 Mai 2019, 10h44

Crédito: Divulgação

Para a construção de qualquer estratégia de estudo e aprendizagem, duas contingências precisam ser consideradas: a primeira é o fato de que o hipocampo é limitado na estocagem provisória e temporária de informações e a segunda é que a manutenção do foco naquilo que se quer aprender depende das condições emocionais. Como consequência da primeira, há que se estudar pouco; e, da segunda, se a concentração não for máxima, é pura perda de tempo continuar a estudar. Essas duas restrições exigem do aprendiz estratégias diferenciadas, principalmente se for levada em consideração a possibilidade de transferência do que estiver no hipocampo para os locais de armazenamento de longo prazo, como é o recurso do sono. Neste sentido, este ensaio tem como objetivo mostrar a importância de se estudar pouco, mas de forma focada, para aquisição do máximo armazenamento possível das informações e aprendizado.

Certo estudante se considerava fracassado porque estudava o mesmo assunto durante várias horas por dia. Chegava a ficar seis horas seguidas lendo e relendo as mesmas páginas. A cada lida, o que retinha era muito pouco, o que o levava a nova relida, novamente sem sucesso. Depois de dois longos e penosos anos de estudos, seus fracassos diários o fizeram desistir do curso que supostamente amava para se dedicar a outro, cujas atividades consistiam em manusear cores e objetos para a produção de quadros e outras figuras decorativas. O aluno estudava administração e trocou o curso para design de interiores.

A estratégia que utilizava continuamente era ler e reler até que aprendesse. E isso tinha funcionado muito bem no ensino médio, segundo ele. Mas na faculdade não deu certo. Na administração (como em qualquer profissão e para aprender qualquer outra coisa), a primeira coisa que se tem que fazer é entender a lógica do que se quer aprender. Não há como aprender a fazer orçamentos sem se entender a lógica. E, para que se entenda a lógica, é preciso quebrar em partes o gigantesco assunto “orçamento”. A razão disso é que há micrológicas dentro da lógica global. Há, portanto, uma lógica para as receitas, outra lógica para as despesas e uma terceira para os custos. Dentro das receitas, há outras lógicas menores, cada qual necessária para que seja entendida a micrológica das receitas. Daí vem a segunda coisa que se deve fazer: conhecer cada parte do que se quer aprender para a elaboração de um cronograma ou fluxo de aprendizado. O resultado é a estratégia, o como se vai aprender.

Cada parte do conteúdo precisa ser estudado por pouco tempo. No início, seria interessante que se dedicasse 20 minutos para compreender a lógica daquele conteúdo, saber como funciona. O que são receitas? Como elas se manifestam? Como devem ser registradas? É possível entender essa lógica nesse curto intervalo de tempo. Se não for compreendida e começarem a aparecerem sinais de estafa, estresse ou qualquer tipo de emoção dessa natureza, é melhor deixar de lado esse assunto para outra tentativa, até que a lógica seja compreendida. Compreendida a lógica, imediatamente deve-se praticá-la. O tempo da prática deve ser curto também, entre 30 a 40 minutos.

A finalidade da prática é comprovar a si mesmo que a lógica foi aprendida e, ao mesmo tempo, saber diversas formas de colocá-la em prática. Depois que uma parte foi aprendida, deve-se fazer o mesmo com cada uma das partes do assunto, até que a grande lógica seja conhecida. Queremos dizer com isso que todo assunto complexo (qualquer que seja) é capaz de ser aprendido, se forem conhecidas suas inúmeras partes, a partir das lógicas de cada parte. Ao estudar por pouco tempo a busca da lógica das coisas (que chamamos de entendimento), é possível que se imprima a esse esforço o maior grau de concentração possível, porque é a concentração que permite que as informações sejam levadas ao cérebro de forma limpa, precisa, sem muitos ruídos. Se for seguida de exercícios, práticas, maior probabilidade teremos de ser registrada com clareza e, durante o sono, com limpidez ser transportada para armazenamento de longo prazo. Quanto mais cada lógica for praticada, mais profundos serão os registros no cérebro e mais efetivo o aprendizado.

Os 20 minutos é uma espécie de tempo médio que meus alunos levam para compreender a lógica do que querem aprender, apesar de alguns levarem menor tempo, enquanto outros demandam um tempo um pouco maior. Meus filhos são alfabetizados em tempos de 10 minutos. Quando passa mais tempo, eles começam a ficar dispersos, não prestam mais tanta atenção. E os resultados, quando existem, são sofríveis. Essas experiências todas mostram que não vale a pena insistir em estudar, se não se está concentrado. Raiva, tristeza e sentimentos dessa natureza têm o mesmo poder de impedimento da aprendizagem.

A ciência tem mostrado que aulas dinâmicas e quando o instrutor motiva os aprendizes têm o poder de manter a concentração e foco. A razão disso é que só nos concentramos naquilo que nos interessa, porque o interesse é acionado pela emoção. A emoção facilita o aprendizado de diversas formas, que começam na concentração e perpassam até a geração de recursos metabólicos, como enzimas, que ativam e desativam os neurotransmissores, culminando na sua efetivação. No entanto, é preciso cuidado para que as aulas não se transformem em desfoco, que seria mais trágico ainda.

Entre a estratégia de estudar todo um assunto de uma única vez e estudá-lo aos poucos, várias vezes ao longo de vários dias e até meses e anos, é preferível a segunda. Aprender é entender e saber como usar conhecimentos. Não importa se o conhecimento é a lei da gravidade, a ideia de não-ser em Parmênides ou como fazer orçamentos: tudo tem uma lógica que precisa ser entendida e praticada. Se não praticar, não há aprendizagem, apenas informação; se praticar sem o entendimento, pode-se ganhar habilidade, mas não se consegue atualizar o conhecimento, que é a terceira característica do aprender. Papagaios são hábeis em falar, mas é provável que nem saibam o que falem.

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