Cultura

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Esses loucos colecionadores e seus ídolos eternos

Além de fãs, eles querem ter peças e mais peças colecionáveis de seus amados artistas

Por Evaldo Ferreira

09 Abr 2019, 17h54

Crédito: Evaldo Ferreira

Ser fã de um artista, um cantor, deve ser um tipo de prazer, agora, colecionar tudo relativo a esse artista se torna um árduo prazer.
O industriário Elias Braga Bezerra é um fã/colecionador da Engenheiros do Hawaii, banda gaúcha formada em 1984 e que sempre fez sucesso até acabar em 2008. Ainda assim Elias não perdeu o amor pela banda que continua personificada através de seu vocalista e baixista Humberto Gessinger, atuante até os dias de hoje.

“Comecei a gostar dos Engenheiros a partir de 1986, quando eles lançaram seu primeiro álbum ‘Longe demais das capitais’. Aí não parei mais de procurar tudo o que eles lançavam. Naquela época só existia o vinil, vendidos nas lojas Disco de Ouro e Disco de Prata”, lembrou.
Dos vinis, para as fitas K7, nas quais ele gravava o que bem queria, como entrevistas na televisão e rádios, a coleção de Elias foi ganhando volume.
Em 1990 aconteceu o ápice da ligação de Elias com Gessinger, Carlos Stein (guitarra), Marcelo Pitz (baixo) e Carlos Maltz (bateria), quando estes vieram a Manaus pela primeira vez. Naquele ano a banda havia lançado o disco ‘O papa é pop’, até hoje um dos seus grandes sucessos, ‘estourada’ nas rádios do país, e os fãs da capital amazonense aguardavam ansiosos o show.

“A apresentação deles aconteceu no Manaus Show Club, famosa casa de shows na Cachoeirinha. Lotou e eu fiquei maravilhado com o que vi”, contou.
Desde então Elias não perdeu um único show da banda em Manaus.

“Acho que eles já fizeram uns oito shows aqui, o mais recente, com o Humberto, aconteceu em agosto passado, no Studio 5, no Planeta Rock”, esclareceu.
A Engenheiros do Hawaii lançou doze álbuns de estúdio, cinco álbuns ao vivo, doze coletâneas e cinco DVDs. Elias tem em seu acervo oito vinis (alguns autografados), mais de 20 CDs, doze DVDs, cinco fitas pré-históricas em VHS, com shows da banda, duas pastas com recortes de jornais e revistas e mesmo revistas, algumas que nem são mais publicadas, onde a banda aparece na capa e camisas e mais camisas, que ele manda fazer, com os nomes dos grandes sucessos dos gaúchos. Tem até uma palheta que ele ganhou do guitarrista Carlos Stein.

A única vez em que Elias conseguiu chegar mais próximo dos artistas foi em 2000, quando ele os procurou no hotel Da Vinci, onde estavam hospedados, tirou fotos com os rapazes, recebeu autógrafos nos LP’s que havia levado consigo e numa camisa.

Elias integra o fã clube manauara ‘Até o fim’, da banda, e tem sua coleção como a maior preciosidade do planeta. “Acho que ela deve valer um bom dinheiro, mas jamais de desfarei dela”, garantiu.
 
Olhos nos olhos

Erivaldo gosta de garimpar peçasde Chico Buarque em sebos


O professor universitário Erivaldo Cavalcanti consegue ser ainda mais fã/colecionador do que Elias. Só muda o artista.

“Apesar de o primeiro disco de Chico Buarque, ‘Chico Buarque de Hollanda’, ser de 1966, somente no princípio da década de 1980, quando eu entrei na faculdade, foi que comecei a prestar atenção nas suas músicas e na profundidade de suas letras. Foi o auge de ‘Cálice’, um grito subliminar contra a censura, então passei a observar que muito antes disso ele já compunha cantando contra o sistema político que imperava no país, como ‘Apesar de você’, de 1970; ‘Construção’, de 1971; ‘Meus caros amigos’, de 1976”, falou.

Como todo colecionador, Erivaldo passou a ‘garimpar’ em busca de conseguir todos os discos de Chico. Vasculhou em sebos e conseguiu reunir toda a discografia do compositor/cantor.

“Muitos dos discos eu ganhei de presente dos amigos, outros comprei por R$ 10, e até R$ 1.000, os mais raros”, acrescentou.
Desde 1966, quando lançou seu primeiro disco, até 1990, com ‘Chico Buarque ao vivo – Paris Le Zenith’, Chico não ficou um único ano sem produzir um novo trabalho, chegando a lançar até três discos (1970 e 1977) nesses anos. De 1990 para cá, há anos em que não fez nada e o mais recente é ‘Caravanas’, do ano passado. Por sinal, Erivaldo está em São Paulo onde foi assistir ao show ‘Caravanas’, que o cantor está fazendo naquela cidade.

“Até hoje eu choro quando ele canta determinadas músicas, e grito: Chico, Chico, Chico, quando ele entra no palco. Minha esposa fala, mas fã é fã”, riu.
“Nesses anos todos tenho ido a shows dele, principalmente no Rio e São Paulo (ele não gosta muito de ir a outras cidades), quando ele começa alguma turnê. O primeiro show dele que fui, eu ainda era universitário, sem dinheiro. Consegui o suficiente para ir de ônibus de Recife (de onde eu sou) até o Rio, e comprar o ingresso. Agora que tenho dinheiro, vou sempre, daqui de Manaus, como agora”, explicou.

“Erivaldo nunca chegou perto de Chico, ou sequer tentou se aproximar dele. “Acho que é pelo imenso respeito que tenho por ele. Chico já falou em algumas entrevistas que não gosta de ser visto como um astro, de ser paparicado. Disse até que costuma andar rápido pelas ruas do Rio para que não seja reconhecido”, revelou.

A coleção de Erivaldo tem 62 LPs de Chico, dez compactos, DVDs, CDs, fotos, quatro romances e as cinco peças de teatro escritos por ele.
“Diferente de uma banda, Chico nunca vai passar e será sempre meu caro amigo”, concluiu.