Opinião

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Dizendo dalgumas opções hodiernas - Conclusão

Quanto a isso não se negue o nosso interesse nas tais minudências

Por Bosco Jackmonth

11 Jul 2019, 10h05

Crédito: Divulgação

Sabe-se, quem se atira à prática de noticiar quando colhida do cotidiano, depara-se com obrigações quitais, prendendo-se a um senso de procura e análise dos fatos, por fim agasalhando-se o pesquisador nos limites do reportado, mas, por vezes, tratando com algo de pessoal, enxerido, que nem um Pedro Malazarte, não fosse exagero, mal empregada a citação, é de ver.

A propósito, Martin Heidegger, filósofo alemão e o maior representante do existencialismo, pregava: “Eu estou onde as minhas palavras me trazem.” Então, estamos aqui “onde os fatos nos trazem!” Mas, com licença, posta alguma pessoalidade, é de ver interessa mesmo o acontecimento original.

E o sucedido, como se vê a páginas tantas (quando a realidade ultrapassa a ficção), rediga-se que um casal dono de notória expressão social e empresarial, a princípio buscando serviço jurídico com vista à celebração do que seria um divórcio de grave repercussão, em seguida decidiu-se pela desistência, partindo, ao invés, para a reconciliação, tal como assim justificaram para os patronos prestes a representá-los em Juízo.

Remarque-se, no curso desta série de artigos, ali noticiamos todas as minudências do caso, até então. Falta analisar o que nos revelaram os clientes acerca das fontes que os inspiraram a enfrentar os fatos tidos como sobrenaturais, ou coisa que o vale. Quanto a isso não se negue o nosso interesse nas tais minudências que rotulamos como apologia em torno do inverossímil, ainda que com algum mal-estar por conta do intragável infortúnio atirado à advocacia, enquanto ciência esta que busca alcançar todos os saberes.

Mas não nos foi ato de ciúme, garante-se, apesar da perda de vultosos honorários, até porque ganhou-se com outras experiências, ainda que de natureza sobrenatural, ao que parece. Ora, vão-se os anéis, mas ficam os dedos! Prega o adágio popular visando ao consolo.

Ademais, o evento atirou-nos a pesquisar, não fosse essa uma das vertentes do estudo jurídico. E assim, comecemos por trazer os depoimentos acerca de passagens não bem deste mundo material, o que poderia se traduzir num duelo em torno de crenças, mas restando limitar-se a comportado debate, tudo como no “Livro Crer ou Não Crer”, presentes o Pe. Fabio de Melo e o Historiador Ateu Leandro Karnal. Acrescente-se à lista “O Mundo Como Eu Vejo” e “O Dilema do Porco Espinho” (L. Karnal); “Breves Respostas Para Grandes Questões” (Stephen Hawking); “A Mente de Stephen Hawking” (Daniel Smith). 

Comecemos. “Perguntaram um dia a alguém se havia ateus verdadeiros. Você acredita, respondeu ele, que haja cristãos verdadeiros? (Diderot, Pensamentos Filosóficos). Em seguida colhe-se um debate sobre crer ou não crer, entre o notório católico, e padre, de um lado, e de outro o também festejado historiador, como citados, ou seja Fábio de Melo e Leandro Karnal. 

Uma discussão no bom sentido; sereno diálogo em que pese denso, mas no qual, ao invés de procurar lograr quem está certo, sobressai “o desejo latente de provar que não deve haver desrespeito às crenças nas crenças nem às crenças nas descrenças.”

Não foi portanto um embate, ou combate; contudo afinal restou mesmo um debate, onde ambos com fundamentos sustentam “as razões de suas razões”, ou seja, os sentidos das suas crenças no crível e no incrível. Nisso, diz o prefaciador Mario Sergio Cortella: “Há também momentos de alegria e humor sagaz, o que nos permite não perecer em tecnicismos conceituais nem em enfadonhos meneios intelectuais que servem mais para ostentar arrogante sapiência do que para exercer humilde paciência. O modo como o debate termina é a expressão maior do prazer arguto e da ironia astuciosa de ambos. Ora, sabemos que a primeira grande obra no Ocidente a tratar das bases racionais para uma concepção que admita uma realidade que vá além da mera materialidade é a Metafísica, de Aristóteles.”

Em meio a tudo no livro, a última frase da parte de Fábio de Melo: “A quem não tem Deus, que tenha, pelo menos, Aristóteles”. E Karnal, concluindo o debate: “Amém!”

Não se deixe escapar a agudeza pura de ambos. Numa ponta o padre sustenta suas convicções que não seriam fundadas em delírios, enquanto Karnal profere o amém, histórica fórmula de encerramento e concordância em muitos atos religiosos sem no entanto tê-los como fatos religiosos, reafirmando, como pesquisador da história e da arte, sua apreciação por ritos, mitos e liturgias.

 Voltemos ao casal quase-cliente que decidiu buscar a solução à sua desdita não no terreno sobrenatural de qualquer feição, em que pese evidências de que tudo teve início nesse espaço. Então, partiram para pesquisar fontes outras que levassem a questionar e mesmo enfrentar o desatino, nisso voltando-se para os princípios do individualismo, relativismo e instrumentalismo, transcritos em artigos anteriores, tanto quanto criticar soluções geralmente consagradas aos casos da espécie.

Apuraram, por exemplo, no livro citado “Crer ou Não Crer”, afirmações do Pe. Fábio de Melo reconhecendo, verbis: “É natural que o discurso religioso que mais cresça seja o que negocia com Deus a solução de todos os problemas mediante pagamento de dízimo”. E mais, “Mais fácil é abrir uma igreja que prometa curar câncer, multiplicar dinheiro mediante barganhas com os santos, trazer o marido de volta...”

Por sua vez, também ali, disse Karnal: “Se você oferecer coisas concretas, você enche as igrejas. Se você oferecer metamorfose de vida, conversão, no sentido etimológico da palavra, fica mais difícil.” E concluiu: “Mas isso leva muita gente a crer, porque é o Deus mercador, e mercadores oferecem mercadorias que agradam aos clientes.”

Assim sendo, chegou-se ao desfecho que favoreceu ao casal personagem destes dizeres, valendo-lhes o mérito pela convicção em busca dos sadios objetivos afinal alcançados mesmo apenas de ordem nada sobrenatural.

*Bosco Jackmonth é advogado de empresas (OAB/AM 436). Contato: bosco@jackmonthadvogados.com.br

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