Opinião

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Desempenho educacional: Brasil ruim e o caos no MEC

Mesmo com alguns avanços, o desempenho educacional do Brasil em relação a outros países é vergonhoso

Por Jonas Gomes

01 Abr 2019, 13h07

Crédito: Divulgação

O artigo mostra o desempenho da educação brasileira em nível global, bem como avalia o desempenho do Governo Bolsonaro nos 85 dias de gestão do MEC.

Quando estudei o mestrado e doutorado no Japão aprendi lições importantes sobre a educação: a qualidade começa e termina com a educação (Kaoru Ishikawa); a educação alimenta a confiança, a confiança alimenta a esperança e a esperança alimenta a paz (Confúcio); melhor que centenas de dias de estudos diligentes é ter um dia de aula com um grande professor (autor desconhecido). Assim, defendo a tese de que a melhoria contínua da qualidade, o desenvolvimento de uma cultura pacífica e a valorização do professor, deveriam ser os pilares básicos de um bom sistema educacional.

Mesmo com alguns avanços, o desempenho educacional do Brasil em relação a outros países é vergonhoso:

a) em 2015 levamos “PISA”, ficamos em 65o lugar em matemática, 63o lugar em Ciências e 59o lugar em leitura;

b) em 2017 ficamos em penúltimo lugar (39o) dentre 40 países analisados pela Pearson International;

c) em 2017 ficamos na 88a posição dentre 127 países investigados pela UNESCO. Entre os objetivos avaliados estão a ampliação da educação infantil, a universalização do estudo primário e o combate às desigualdades de gênero. Os 3 melhores foram: Japão, Reino Unido e Noruega. Na ocasião, a pesquisa apontou que 700 crianças no Brasil estavam fora da escola primária;

d) em 2018 ficamos em 96o lugar dentre 201 países investigados pelo 2018 World Best Education Systems. Neste ranking, os 3 líderes foram: Coréia do Sul, Finlândia e Noruega. A pesquisa usa a taxa de matrícula na idade certa dos estudantes, taxa de graduação, escolas seguras, analfabetismo, desempenho em leitura, matemática, etc;

e) em 2018, o Brasil ficou em último lugar em termos de valorização dos professores, o estudo foi feito entre 35 países pela Varkey Foundation. A pesquisa mostra que há pouca compreensão por parte da população em relação ao trabalho e a remuneração dos professores;

f) em 2018, seis universidades brasileiras saíram do ranking das mil mais respeitadas do planeta (Times Higher Education), sendo o 2o ano consecutivo de perda do espaço. Se o leitor visitar o QS World University Ranking <https://www.topuniversities.com/university-rankings>, verá que em 2019 nenhuma universidade brasileira ficou entre as cem melhores: USP em 118o lugar, UNICAMP em 204o, UFRJ em 361o.. UFAM e UEA nem aparecem! Por outro lado, as 3 melhores foram: MIT, Standford e Harvard.

O triste quadro acima deveria constar em debates, em qualquer plano sério de governo, uma vez que nosso país vive um paradoxo, pois enquanto é um dos que mais gasta com a educação pública (perto de 6% do PIB por ano, superior em média da OCDE), também está entre os piores em avaliações internacionais de qualidade de ensino. Além disso, um outro olhar revela que quando dividimos o valor total gasto por aluno, percebemos que investimos muito menos que os países desenvolvidos.

Há inúmeros desafios e se não melhorarmos o processo de recrutamento e seleção dos ministros, secretários e diretores educacionais, as políticas públicas, a gestão dos recursos, a transparência, os modelos e processos educacionais, dificilmente teremos mudanças positivas. Neste sentido, a União é o grande motor, pois coordena a política nacional de educação, regulamenta a oferta da educação superior. Na sua função redistributiva com foco na educação básica, ela atua por meio da complementação que realiza aos recursos do FUNDEB e do FNDE.

Em 2018, durante as eleições, o cidadão teve acesso as propostas de plano de governo de cada candidato a presidência. Quem se deu ao trabalho de analisar cada plano, ficou triste com o grau de superficialidade da maioria dos candidatos. Dentre os planos mais superficiais estava o do então candidato Bolsonaro, pois as 81 páginas estavam eivadas informações controversas, distrativos com pouca relevância para a nação, com forte cunho religioso e de ideologia contaminante. Neste documento não há um diagnóstico sério dos principais problemas educacionais, nem diretrizes ou metas para o ensino infantil, nada sobre a conclusão de obras de creches no país, não apresenta nenhuma diretriz para melhorar o ensino médio, nada para combater a evasão, nem melhorar o desempenho dos alunos em matemática, ciências e leitura, nem como valorizar e melhorar a qualificação dos professores, nenhuma diretriz ou meta para melhorar a gestão escolar e universitária, a infra-estrutura, etc.

A pobreza de conteúdo no plano de governo, bem como a histórica falta de liderança de Bolsonaro  explicam o caos que o MEC vive em 85 dias de gestão: a) escolha de Ministro despreparado, pois não tem formação nem áreas afins nem experiência comprovada de sucesso em gestão da educação pública; b) continuação do uso de estratégias da campanha para distrair os bestas (kitgay, doutrinação, escola sem partido, perigo do marxismo, hino nas escolas, etc) e desviar a atenção dos brasileiros sobre assuntos mais sérios como os descritos acima; c) constantes brigas e pernadas entre militares e evangélicos, gerando demissões de indicados e desgastes desnecessários; d) paralisia no MEC prejudicando programas educacionais, tais como: ProBNCC, o Mais Alfabetização, Pro-Infância, etc.

Além do caos no MEC, o decreto 9725 assinado pelo Presidente em 12/03/19 extinguiu 2.449 postos em instituições de ensino que estavam vagos, mas que poderiam ser usados a qualquer momento. Além disso, cerca de 11.261 funções gratificadas atualmente em uso deixarão de existir em 31 de julho, seus ocupantes serão exonerados ou dispensados, prejudicando o trabalho de diretores, chefes e coordenadores de cursos das combalidas universidades.

Enquanto Governo Bolsonaro exige cortes de privilégios e sacrifícios da população, sua turma faz a festa com dinheiro público: a presidência elevou em 16% o gasto com cartão corporativo, o filho de Mourão já recebeu promoção relâmpago no BB, Major Olímpio (PSL) esbanja dinheiro público em restaurante caro, sem contar os inúmeros casos de parentes e amigos recebendo cargos comissionados com gordas gratificações, como a jornalista Elisangêla Freitas, nomeada com dois cargos que somam R$ 13.328,39, um no valor de R$ 5.685,55 de Assessor Técnico (DAS 102.3 – DOU 04/02/19) na Assessoria de Comunicação da Vice-Presidência da República e outro no valor de R$ 7.642,84 como Auxiliar Parlamentar Pleno (AP07-DOU de 27/02/19) no Gabinete do Senador envolvido com milicianos. Para esta turma, o discurso de moralização e enxugamento do estado não vale, por exemplo, essa jornalista foi assessora do Flávio Bolsonaro, ano passado se candidatou a deputada federal, não ganhou e teve conta reprovada. Na maior cara de pau, ela repassou R$ 14,9 mil (59% do total) do fundo eleitoral para o marido “trabalhar” na campanha, com o detalhe de que ele é funcionário público da Embrapa, o qual sumiu do trabalho por meio de duas licenças médicas.

Diante do exposto, o Brasil anda ruim e o atual governo está reprovado nos primeiros 85 dias de gestão educacional, pois o caos instalado parece usar a máxima de que “a má qualidade começa e termina com confusão”, uma vez que o país continua sem rumo, os velhos vícios são mantidos e os reais desafios são substituídos por cortes na educação, fake news, distrações, brigas e muito barulho. Infelizmente, nada de propostas concretas para melhorar a qualidade da educação, promover a paz e valorizar os professores.

*Dr. Jonas Gomes da Silva – Vice Chefe do Departamento de Engenharia de Produção da FT-UFAM – jgsilva@ufam.edu.br






 

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