Opinião

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Construindo blocos de aprendizagem

E como eu fiz? Eu quebrei o longo caminho, o desafio gigantesco, em pequenas partes, pequeno blocos

Por Daniel Nascimento

08 Abr 2019, 11h54

Crédito: Divulgação

Não é comum encontrar quem diga que não é capaz de aprender determinada coisa. Há quem afirme que jamais conseguirá realizar cálculos integrais, enquanto outras há que se vê impossibilitadas de pelo menos ensaiar alguns passos de dança, como o tango ou samba. Muitos não conseguem sequer se imaginar flutuando na água, ao mesmo tempo em que se veem nos canais de comunicação nadadores tão velozes quanto os fundistas do atletismo. Infelizmente, não imaginam que a ciência já é capaz de transformá-los, se não em grandes astros da dança, esporte ou da matemática, pelo menos em indivíduos capazes de realizar sem dificuldades quase todos os cálculos e atividades dessas áreas. E se houver boa vontade, poderão se transformar em verdadeiras virtuoses. O conhecimento do cérebro permite, tanto ao professor quanto ao aluno, que se vença qualquer obstáculo ao acesso do conhecimento, inclusive para muitos que apresentem deficiências fisiológicas e metabólicas. Este ensaio tem como objetivo mostrar como funcionam os blocos de aprendizado.

Sempre fui um apaixonado por música. Alguns amigos tocavam violão, e eu ficava encantado com o casamento do som da voz com a do instrumento. À primeira vista, era tão simples... Bastava deslizar a mão entre as cordas, inclusive sem olhar para elas, e soltar a voz sem qualquer preocupação. Até fazer estripulias, como colocar o instrumento nas costas e ainda assim continuar tocando, me pareciam extremamente triviais.

Certa vez tive a oportunidade primeira de ter um violão nas minhas mãos. Estava ali, sozinho com o instrumento. E a ideia de trivialidade me percorreu a alma. E me vi na primeira tentativa de tocar, demonstrar para mim mesmo que era simplório fazer sair música daquele instrumento. Passei a mão esquerda por entre as cordas ao mesmo que a mão direita tentava fazer sair som dali. Primeira decepção: não saía nada. Em seguida, retirei a mão esquerda das cordas e lambei-as com a direita. Saiu um som. Segunda decepção: minha mão esquerda estava atrapalhando a direita. E aquilo me intrigou.

Dias depois pedi a um primo que tocasse certa música. Meu interesse era ver como se comportava cada uma das mãos. Para minha surpresa, cada um dos quatro dedos da mão esquerda tinham coisas específicas para fazer, que era apertar cada corda, aperto que mudava constantemente ao longo da música, enquanto o dedão apertava o braço do violão, deslizando para cima e para baixo; mas os dedos da mão direita tinham uma missão mais desafiadora: alcançar com a ponta da unha cada uma das cordas apertadas pelos dedos da mão esquerda. Tudo isso dentro de determinado ritmo, que não poderia aumentar e nem diminuir ao longo de toda a canção. Fiquei estarrecido: tocar não é trivial.

Resolvi encarar o desafio de tocar violão. Passei uma semana domesticando minha mão esquerda e seus dedos no firme propósito de acertar as cordas do instrumento. No início, eu colocava o indicador em uma corda e quando eu ia colocar o médio em outra, o indicador saía. Fiquei irritado tantas e tantas vezes. E quanto mais eu ficava irritado menos eu aprendia. Mas a determinação de aprender me fez controlar a irritação. Até que domei a mão esquerda. Depois fui domar a mão direita, cujas dificuldades não foram menores: levei três semanas. Em um mês, praticando cerca de cinco horas por dia, domei duas partes importantes de mim. O desafio seguinte foi decorar, entenda-se colocar os dedos da mão esquerda nas cordas certas, de acordo com os acordes (que são notas musicais), e acertar, com os dedos da mão direita, essas mesmas cordas de forma ritmada. Levei um mês.

Daí veio a vontade incontida de tocar. Começava com músicas com poucos acordes simples e com acordes que demoravam para serem mudados. Nunca consegui tocar uma música do início ao fim de primeira. Resolvi aprender por partes. Primeiro aprendia um verso e repetia exaustivamente, depois o segundo, da mesma forma. Quando eu dominava o segundo, tocava o primeiro e emendava com o segundo. Assim que eu conseguia fazer a ligação do primeiro para o segundo, partia para o aprendizado do terceiro isoladamente; aprendido o terceiro, repetia exaustivamente na sequencia o primeiro, o segundo e o terceiro. Sintetizando, levei um mês para tocar minha primeira música. Quando eu fui tocar essa música (a única que eu sabia) para alguém, essa pessoa imaginou que eu tocava há muitos anos, tanto o domínio que eu tinha sobre aquela única música no violão.

O que eu fiz, sem perceber? Eu consegui vencer um dos maiores desafios da vida, que é aprender a tocar um violão, que significa dar independência para o corpo, para os dedos, para as mãos. É tão difícil quanto falar uma nova língua. E como eu fiz? Eu quebrei o longo caminho, o desafio gigantesco, em pequenas partes, pequeno blocos de aprendizado. Tudo começou com a minha constatação de que tocar não tem nada de trivial, seguida da confirmação de que apenas pessoas determinadas conseguem tal feito. A determinação tem que ser tanta, sem igual, para poder suportar tanta dor nos dedos, ver o sangue escorrer da ponta dos dedos e não poder parar de tocar, para que o aprendizado se efetivasse. Aprender dói, é causticante, porque representa rasgar de dentro do aprendiz a casca dura da ignorância e da estupidez. Quem diz que aprende se divertindo ou mente ou não aprende de fato.

Qualquer coisa pode ser aprendida, desde que o aprendiz tenha boa vontade. E boa vontade significa justamente isso: não desistir até que o aprendizado tenha se efetivado. Quando o desafio é enfrentado com inteligência, aprender fica mais fácil, menos dolorido, mas não quer dizer que seja gostoso, divertido. E saber em que partes quebrar o todo que se quer aprender é o exercício mais fantástico que se possa ter para a inteligência se manifestar. É que inteligência é isso: ter vários jeitos (métodos e técnicas) para lidar com as situações da vida. A construção de blocos de aprendizado leva a isso: a vencer aquilo que tenta nos impedir de ser os gênios que podemos ser, que é justamente nossa ignorância, que se esconde por detrás dos atrativos do lúdico e do prazer. O aprendizado provoca rasgos no cérebro. E rasgos doem.

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