Cultura

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Conheça o contador de histórias do povo Munduruku

Professor indígena lança seu primeiro livro no qual narra histórias que ouviu dos anciãos

Por Evaldo Ferreira

12 Abr 2019, 16h53

Crédito: Evaldo Ferreira

Por natureza o munduruku é um povo guerreiro. Chegaram a ser conhecidos em tempos passados como o povo mais guerreiro da Amazônia. Seu nome foi-lhes dados pelos rivais parintintim e significa ‘formigas vermelhas’, ou ‘formigas de fogo’ numa alusão a como atacavam territórios rivais, rápidos e em massa, como formigas.

Mas esses feitos ficaram para trás e hoje, integrados à sociedade branca, os munduruku lutam para manter viva a sua cultura, suas danças, suas músicas, sua culinária, ainda que estejam perdendo o principal elo de ligação de um povo, seu idioma, hoje falado fluentemente apenas por anciãos nonagenários.

Para manter viva a chama que ilumina seu povo, o professor Ytanagé Coelho Cardoso, lançará no próximo dia 17, quarta-feira, seu primeiro livro ‘Canumã: a travessia’, um romance inspirado em fatos que ele ouviu dos anciãos e criou o enredo.

“As histórias do romance se passam num tempo em que eu ainda não havia nascido, antes da década de 1980 quando, apesar das décadas de aproximação com os brancos, ainda mantínhamos muito de nossa cultura”, falou Ytanagé.

Ytanagé nasceu em Nova Olinda do Norte, entre os munduruku do Amazonas. Eles também têm parte de seu povo no Pará.

“Ainda bebê fui viver com a minha família, na aldeia Coatá, às margens do Canumã, por isso o título do livro. Até os dez anos de idade vivi entre a cidade de Nova Olinda e a aldeia e cresci naquele ambiente munduruku”, lembrou.

“Foi por volta de 1919 que os indígenas daquela região começaram a falar o português, com a intensidade da influência e comunicação com Nova Olinda e Borba. Até então eles moravam em malocas”, contou.

Tomando banho de rio

“Na minha infância, na aldeia, já morávamos em casas de madeira cobertas com palhas, mas ainda utilizávamos luz de lamparina e apanhávamos água na beira do rio. Hoje, menos de 20 anos depois, temos algumas casas de alvenaria, energia elétrica em todas as casas, água encanada e internet na escola”, revelou.

“Nas nossas festas cantava-se o canto dos antepassados, íamos para a mata caçar e para os rios pescar. Hoje os parentes preferem comer comidas industrializadas, enlatados. Nas reuniões para fazer farinha, eram feitos biscoitos de goma e pé de moleque, depois distribuídos por todos da aldeia. Isso não acontece mais, porque já tem muito parente”, lamentou.         

“Naquela época tinha umas 30 famílias ao longo do Canumã. Agora calculo umas 500. É que antes os parentes tinham vergonha de se assumir munduruku, principalmente quando iam para Nova Olinda ou Borba. Não queriam saber de aprender falar a língua e demonstrar os próprios costumes. Agora que os parentes resolveram se assumir munduruku, muito já se perdeu. Muita gente que falava a nossa língua, morreu, e os jovens não aprenderam, inclusive eu, que consigo me comunicar com dificuldade com os parentes do Pará, onde ainda tem mais gente que sabe falar o munduruku”, disse.

“Minha infância foi livre, subindo em árvores pra pegar frutos lá no alto e tomando banhos no rio. Hoje até drogas circulam entre os parentes, principalmente os jovens”, informou.

Logo após lançar seu livro, Ytanagé viaja para a aldeia Coatá, onde acontece há décadas o Festival Cultural Munduruku, no Dia do Índio, quando os participantes procuram expor a memória do povo, cantando e dançando, com os corpos pintados, contando histórias mitológicas.

“Com esse livro quero registrar um pouco da história do meu povo, mas pretendo escrever outros, com mais e mais histórias munduruku”, adiantou.

Trecho do livro

“– O que aconteceu, Felipe?

– O vovô Parawá faleceu nessa manhã e a última coisa que ele pediu antes de fechar os olhos pela última vez foi que tu fosses pra lá fazer parte do velório.

            Raçâp não teve ação. A única coisa que fez foi avisar o mediador que não poderia mais falar nada e que pedisse perdão ao público. Estaria indo imediatamente, porque acontecera uma grande tragédia.

            Como não daria mais tempo de pegarmos a lancha da tarde, tivemos que esperar amanhecer: partimos. Assim que chegamos à aldeia, todos correram até a sede, onde seu Parawá deixava sua última imagem aos munduruku. Todos choraram a perda. Mulheres gritavam, crianças se amontoavam em cima do caixão, filhas desmaiavam, comadres e sobrinhas ainda não acreditavam naquele destino. O Canumã estava calmo, bondoso, parecia uma mensagem. Seu Parawá já dizia que quando se é justo com a natureza, ela não nos deixa na mão.

            Pouco antes do meio-dia, Raçâp, juntamente com mais quatro parentes, pegaram o caixão, colocaram na voadeira, atravessaram o igarapé e sumiram no lago eterno do suntuoso Canumã”.     

Serviço

O que: Lançamento do livro ‘Canumã: a travessia’  

Onde: Auditório anexo da Escola Normal Superior da UEA

            Av. Djalma Batista, 2470 – Chapada

Quando: Dia 17, quarta-feira, às 15h

Informações: 3184-4568 e 9 9613-1113 (Editora Valer)