Cinema

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Cinema amazônico sem estereótipos

23 Out 2019, 12h50

Crédito: Divulgação

Atualmente, a atriz Isabela Catão se prepara para participar do curta-metragem “Enterrado no Quintal”, sob a direção de Diego Bauer. Este, por sua vez, encontra-se escrevendo também um roteiro para um longa, com Pamella Martelli, que tem o título provisório de “Maria”. Já o cineasta Sérgio Andrade pretende lançar comercialmente, em 2020, o seu mais recente filme, “A Terra Negra dos Kawa” (2018), e já planeja mais um longa de ficção. E Zeudi Souza, que busca uma especialização em Barcelona, na Espanha, terá o curta “Rio das Borboletas” em circulação pelo Brasil por meio da Mostra Sesc de Cinema.

Assim é o cenário cinematográfico em Manaus: profissionais escrevendo roteiros, atuando em longas ou curtas-metragens, divulgando suas obras pelo Brasil e no exterior, conquistando reconhecimento de público e crítica em exibições pela cidade e em festivais, enfim, gente produzindo sempre, e que busca não desanimar diante dos obstáculos que a sétima arte nacional tem enfrentado nos últimos meses.

Entre as características dessas produções estão os enredos voltados para a região – seja no âmbito urbano ou natural – e a recusa em repetir antigos estereótipos sobre a Amazônia. “A cinematografia da Região Norte e da Amazônia precisa se caracterizar e se instrumentar com obras que revelem sua identidade e, principalmente, com realizações dos habitantes daqui”, destaca Sérgio Andrade, responsável por filmes como “A Floresta de Jonathas” (2012) e “Antes o Tempo Não Acabava” (2016).

Esses dois longas alcançaram uma grande visibilidade, tanto nacional quanto internacional, em diversos festivais de cinema. Sérgio Andrade atribui essa aceitação positiva a sua opção em tratar a Amazônia sem mitificações e estereótipos. “E busco uma identificação humanista e, ao mesmo tempo, ligada a um fantástico que é uma investigação da realidade porque levo a língua indígena a ser ouvida e a mentalidade do homem do Norte a ser percebida”, observa.

Do lançamento de seu primeiro longa-metragem até aqui, Sérgio cita como um ponto a favor para a produção de cinema no Estado a regionalização de chamadas e editais ao longo dos governos federais, que teve início a partir de 2002. “Tudo ficou propício para a realização de filmes no Amazonas e também a facilitação dos equipamentos, que se tornaram mais acessíveis”, diz. “Os contras ainda são os apoios das esferas estaduais e municipais, que fizeram muito pouco para um subsídio profissional e sistemático ao audiovisual local e sua formação educacional. Precisamos de leis e editais mais expressivos e vultosos”.

Sérgio Andrade revela que espera lançar, no início de 2020, o filme “A Terra Negra dos Kawa” para comercialização. “Estamos cuidando, junto à distribuidora Pagu Filmes de São Paulo, da inscrição em edital para essa comercialização”, adianta. “Quanto a novos projetos, ano passado fomos comtemplados com o edital fluxo contínuo do FSA (Fundo Setorial do Audiovisual). Também estamos no aguardo da contratação, que está demorando por causa dos percalços que a Ancine tem enfrentado. É mais um longa de ficção, que tem o título provisório de ‘Sacopenapã’, um argumento intenso que fala de ancestralidade e situação político social”.

Repercussão nacional e internacional

Outra produção local que chamou a atenção de espectadores pelo país é “Obeso Mórbido” (2018), com roteiro e direção de Diego Bauer e Ricardo Manjaro. Bauer também é o protagonista desse curta e foi eleito o melhor ator do festival Maranhão Na Tela, em São Luís. “É um filme em que o Ricardo e eu nos apropriamos de uma situação pessoal para contar o filme que a gente queria contar”, afirma Diego. “A gente tem uma relação com o próprio corpo cada vez mais problemática e, ao mesmo tempo, a gente o utiliza para se vender nas redes sociais o tempo inteiro, se autovalidar. Estávamos pensando em várias coisas para abordar no ‘Obeso Mórbido’ e percebemos que essa questão mais universal era o que mais poderia causa relação com o público”.

Diego Bauer começou a carreira artística no teatro e, hoje, integra as equipes da Artrupe Produções – realizadora do festival Olhar do Norte cuja segunda edição aconteceu em abril – e do site Cine Set (www.cineset.com.br), “que já se tornou um parceiro fundamental para o cinema e a cultura amazonense”, observa. Antes de “Obeso Mórbido”, Diego atuou nos curtas “O Necromante” (2016), de Ricardo Manjaro, e “A Segunda Balada” (2012), de Rafael Ramos, e fez uma participação na série “Aruanas” (2019), da Globo.

Para o diretor e roteirista, o que foi vivenciado durante a semana de realização do festival Olhar do Norte mostra que o cinema amazonense está num bom momento. “Por todo o resto que vemos, não; estamos num péssimo momento. Estamos num momento de perda de direitos, de perda de conquistas, de perda de investimento, de um pouco de tudo. Não só na questão financeira, mas também de credibilidade, de como somos vistos pela sociedade, de como a gente voltou a ser encarado. Parece que não somos trabalhadores, que somos vagabundos que dependem de dinheiro do governo pra fazer besteira e filmar qualquer coisa”, analisa.

Diego acredita que, nesse sentido, o momento é de repensar a carreira. “Eu vou continuar fazendo o meu trabalho, mas fico pensando nas pessoas que estão começando agora, que precisam de um pouco de estímulo para permanecer nessa área, e não vão permanecer. Neste momento temos boas cabeças, boas ideias e um cenário absolutamente desanimador”, lamenta. “De 2014 para 2017, tivemos vários projetos aprovados pela Ancine. Muita gente produzindo e emendando produções, não só nacionais, mas internacionais também. Tivemos dois ou três anos de crescimento sem precedentes para ir para o pior momento dos últimos 20, 30 anos. Temos ideias e cabeças para produzir, mas não temos suporte”.

Do teatro para o cinema

Com atuações elogiadas no audiovisual, a atriz Isabela Catão comenta que as gravações do curta “Enterrado no Quintal” – um texto de Diego Moraes que será dirigido por Diego Bauer – devem começar no próximo mês de outubro.

Ela conta que o seu caminho até o cinema teve início com amigos seus que frequentavam as peças teatrais das quais participava. “Alguns amigos já conheciam o meu trabalho no teatro e surgiram oportunidades de fazer algumas participações em curtas da Artrupe Produções. Depois, um amigo chamado Rafael Dias me indicou para participar do curta ‘A Goteira’, de Bernardo Ale Abinader, com quem ainda fiz o curta ‘O Barco e o Rio’”. Os curtas “Aquela Estrada” (2016) e “O Tempo Passa” (2016), as séries “Transviar” (2018) e “Aruanas” (2019) e a novela global “A Força do Querer” (2017) também fazem parte da carreira da atriz amazonense.

Isabela observa que, cada vez mais, as produções de cinema têm se voltado para conhecer melhor a história da região, e buscam investigar como são as pessoas e as culturas. “E querem mostrar histórias de uma maneira muito mais inteligente e que possa ser acessível. Eu acredito que, nesse sentido, o cinema tem caminhado por um lugar bem interessante. E que bom que as pessoas têm dado oportunidades para esse campo se ampliar, de investigar esses lugares, buscar os que ainda não são acessíveis, mas que o cinema pode alcançar para contar uma história desse lugar e proliferar mais essa informação”, analisa.

Roteiro e direção num apimroramento contínuo

Premiado com o curta “Perdido”, na edição de 2010 do Amazonas Film Festival, Zeudi Souza conta que hoje em dia gosta muito do processo de escrever e dirigir. Mas, assim como outros colegas, também já experimentou diversas funções no audiovisual, entre elas, de ator, produtor e preparador de elenco. Há alguns anos sem se dedicar à produção cinematográfica, pois trabalhou como curador de artes cênicas do Sesc Amazonas, e teve que se dedicar integralmente a essa atividade, Zeudi mora em Barcelona, onde busca por uma especialização. Mesmo assim, revela que também está voltando as suas atenções para o cinema.

Zeudi acredita que não apenas ele próprio, mas também os demais realizadores audiovisuais do Estado, sentem um “enorme prazer” de exibir na tela a história, as pessoas, o sotaque e as diversas matizes culturais do Amazonas. “Falar de nós é um grande prazer, mas a Amazônia distante, exótica ainda caminha com os realizadores e idealizadores que hoje enfrentam a dificuldade de produzir, não só pela escassez de políticas voltadas para uma produção mais concisa e sincera, como a falta de incentivos reais demandadas do poder público”, analisa.

Ele lembra que já houve políticas voltadas para a região, por meio das quais grandes artistas locais puderam realizar obras que foram exibidas pelo Brasil e pelo mundo. “Mas hoje a realidade parece ser ofuscada por uma jornada contra o fomento das produções, não só de cinema mas também de outras áreas. Creio que a maior dificuldade de fato é uma política a longo prazo para fomentar essa frente de trabalho que gera muitos e muitos empregos”.

A filmografia de Zeudi Souza inclui ainda “Promessa” (2009), “Vivaldão – O Colosso do Norte” (2011), “No Rio das Borboletas” (2018) e “A Flor do Carmelo – Padroeira de Parintins” (2018). Ele observa que o cinema local é visto pelo Brasil e pelo mundo através das obras de Sérgio Andrade, Aldemar Matias, Aurélio Michiles, Rafael Ramos, entre outros. “Mas isso graças a uma política de descentralização que vinha acontecendo nos governos anteriores, e acho tudo isso muito fantástico porque devemos pensar que o Brasil é enorme e nada melhor do que nossa gente para falar de nós mesmos, e o cinema é essa arte que alcança um grande número de pessoas”. Ainda assim, o roteirista e diretor afirma que os profissionais da área devem querer mais profissionalização vinda do poder público, mais editais, mais fomentos, apoios, centro de estudos, vídeo clubes, cinemas de arte, cinemas ao ar livre.

“Creio que temos muito ainda a caminhar, mas com toda certeza o nosso cinema deu largos passos na última década, e faço coro para que esses passos, mesmo diante desse momento que hoje acontece no país, sobretudo no que tange à produção cultural, não parem de seguir adiante. Devemos sempre fazer uma reflexão do que queremos e onde queremos chegar nas próximas décadas, e devemos encarar isso como profissionais e fazer frente das necessidades de pertencimento das histórias dessa terra e desses povos que aqui vivem”, finaliza.

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