Opinião

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Cieam 40 anos, a batalha perene de Mário Guerreiro, parte 2

08 Ago 2019, 08h52

Crédito: Divulgação

*Fundador do Centro da Indústria do Estado do Amazonas 

Há 40 anos era instalado o Centro da Indústria do Estado do Amazonas, sob a liderança e inspiração do empresário Mário Expedito Neves Guerreiro, na companhia dos principais empresários da indústria tradicional e das empresas pioneiras da Zona Franca de Manaus. Uma história de resistência e de protagonismo civil.

COMBATE À MUTILAÇÃO DA ZFM: -  Mário Expedito Neves Guerreiro foi escolhido por unanimidade para presidir o CIEAM - entidade que ele planejou com seus pares - no início de agosto de 1979. Isso conferiu-lhe o imediato direito e prerrogativa de elencar o que ele chamou de mutilações ao texto original que deu legitimidade ao programa de desenvolvimento denominado Zona Franca de Manaus, o Decreto-Lei 288/67. De bate-pronto, ao lado do então presidente da FIEAM, empresário João de Mendonça Furtado, e aproveitando a presença das autoridades estaduais e federais, na pessoa do governador José Lindoso, e do superintendente da Suframa, Rui Roberto da Costa Lins, foi direto ao ponto. Deixou claro que havia tanto prejuízo na área federal com o Decreto-Lei n° 1435/75, como no âmbito estadual com a Lei n° 958/74. No âmbito federal as cobranças do imposto de importação na planilha de custos da mercadoria de saída e no âmbito estadual as dificuldades de repasse da devolução do ICMS a que as indústrias tinham direito. "Nossa luta será, intransigentemente, para revogar as mutilações do Decreto-Lei 288/67." . O experiente líder empresarial já antevia que -  a maledicência e o desconhecimento de nossas condições de área remota – iriam desencadear intrigas nacionais e obrigar o Governo Federal, especialmente, a cometer deformações e cassação de direitos que a Lei nos garantiu em 1967. 

"A GRANDEZA DO AMAZONAS, O BEM-ESTAR DO SEU POVO E A INTEGRIDADE DA PÁTRIA". 

Por que criar uma entidade diferenciada para a indústria? Essa pergunta fica clara no pronunciamento de 10 de agosto de 2019. Deixando claro o projeto traçado com seus pares, Mario Guerreiro explicou qual era a razão e o diferencial institucional desta Entidade. "O Centro da Indústria vem complementar o quadro de representação de nossa sociedade, sempre em mutação, e por isso exigente dos melhores esforços de trabalho, de inteligência, em benefício da causa comum de todos: a grandeza do Amazonas, o bem-estar do seu povo e integridade da Pátria". Eis o fundamento histórico desta luta, fruto do espírito visionário que marca suas origens - inspirada pelo pioneirismo empreendedor do fundador - que descreve a atuação desta Entidade até hoje, seu compromisso com os associados e, principalmente, com os destinos do Amazonas. A rigor, aqui se trata de um posicionamento absolutamente sintonizado com a Carta Magna em cujas Disposições Transitórias estamos o inseridos, a saber, a conexão dos 8,5% de contrapartida fiscal e o o consequente desafio de redução das desigualdades regionais. Agregue-se a isso, a proteção florestal que define o paradigma socioambiental deste programa de desenvolvimento. 

PREMISSAS DA JORNADA CÍVICA: - Conhecedor do espírito atávico de nossos ancestrais, suas dificuldades de associativismo, onde, em nome da própria sobrevivência, é comum o surgimento do egocentrismo institucionalizado em detrimento da ação compartilhada e solidária, Mario Guerreiro explicitou o pressuposto básico da estrutura e funcionamento do CIEAM: "... é o princípio da União no sentido mais lato dessa expressão, é a Unidade de seus associados na defesa, preservação, desenvolvimento, fortalecimento e consolidação da indústria em geral e da Zona Franca de Manaus, especialmente a União com as entidades co-irmãs, a Federação da Indústrias, a Associação Comercial, a Federação do Comércio e da Agricultura, o Clube dos Dirigentes Lojistas, a Associação Associação dos Exportadore; 

União com o Governo do Estado a ele oferecendo nossas  contribuições que possam ajudar na formulação do seus planos e políticas voltados para o desenvolvimento integrado da sociedade e, para com ela cooperar por todos os meios ao nosso alcance. União com as Autoridades Federais, fortalecendo nossa colaboração para o estudo e a solução dos problemas da Amazônia, que conhecemos em profundidade, e o que diz respeito ao nosso bem estar e segurança aos quais não podemos estar alheio, para que ao Amazonas seja permitido contribuir positivamente com honradez, independência e ativamente para a grandeza nacional que e com o dever e coletivo." 

UM MUTIRÃO DE LUTA PELA AMAZÔNIA E PELO BRASIL: - Na relação com o poder público, Mario Guerreiro quis deixar clara a contribuição do setor privado em oferecer inteligência corporativa e gestão participativa na tomada de decisões. Ou seja, que sejam ouvidos os interessados no planejamento e em sua execução. Antes de iniciar sua jornada de implantação da tecelagem de luta no Amazonas e da instalação do Hotel Amazonas, com seu companheiro Adalberto Vale, ele viveu em São Paulo, onde conviveu com o jornalista Corifeu de Azevedo Marques, cujos descendentes ainda hoje mencionam a paixão exacerbada daqueles dois jovens amazonenses por sua Terra esquecida. Agradecendo a confiança de seus pares em levar adiante seu propósito, justificou a iniciativa de instalação do CIEAM, enfatizando um apelo dramático pela Unidade:  "Aceitei essa incumbência com a visão histórica que adquirimos em 40 anos de luta. Recebi este encargo com o sentimento íntimo da excepcionalidade do momento que atravessamos, no contexto dos problemas nacionais, e como testemunha ocular deste período, atrevo-me a dizer que é hora de aglutinação de todos os que vivemos na Amazonas, é hora de União de todos quantos têm responsabilidades pelo futuro do Estado, pelo seu desenvolvimento econômico social e político, da União, enfim, de quantos temos responsabilidade pela integração da Amazônia ao Brasil, pelo resguardo de nossa integridade territorial".

AGRADECIMENTO AO GOVERNO MILITAR: Antes de encerrar sua alocução, o fundador e presidente do CIEAM fez uma comparação entre o antes e o depois da instalação da Zona Franca de Manaus, mostrando, 40 anos atrás, os acertos do desenvolvimento econômico e os benefícios sociais do presidente Humberto de Alencar Castelo Branco, sob cujo governo e compromisso foi criada a ZFM. "Quem lança suas vistas para relembrar o Amazonas há 12 anos poderá sem dificuldades constatar o extraordinário progresso que alcançamos nestes últimos 10 anos, mercê do processo desencadeado pela Lei 288/67 do governo Castelo Branco. Até então vivíamos em clima de gigantesca dificuldades de toda ordem. Embora sem desgastar nossa tenacidade e sem esmorecimento de nossa obstinação, sempre cheios de confiança e esperança no futuro. Nossa força industrial, podemos classificar diante do quadro de hoje, era absolutamente inexpressiva. A qualidade de vida, no sentido do usufruto dos bens da sociedade moderna, angustiava as liderança de nossa terra. As oportunidades de estudo em todos os níveis eram privilégios. O exercício do trabalho técnico profissional era difícil O êxodo de nossa juventude com mais potencialidades era inevitável. A capacidade do nosso indústria e do nosso comércio de proporcionar ocupação ao operariado era insignificante. Pois bem, com advento da Revolução de 1964 e do Decreto-Lei 288/67, o panorama vem se modificando e hoje podemos constatar, agradecidos, a profunda mudança no panorama. Vemos o Distrito Industrial em plena força de trabalho, vemos as indústrias tradicionais que se expandirem e  modernizarem seus estabelecimentos, proporcionando oportunidades de trabalho a mais de 80.000 pessoas,  vemos nossas escolas e universidades colocando no mercado de trabalho cerca de 10.000 pessoas por ano e vimos com alegria o mercado de trabalho absorvendo toda essa de mão-de-obra, de modo que em Manaus praticamente inexiste o desemprego". 

O PAPEL E A CONFIANÇA DA INDÚSTRIA: - Finalmente, com muita coerência e visão de futuro, pôs a verdade nos fatos no esplendor de suas evidências, ao traçar a função do Polo Industrial no desenvolvimento de nossa região. "É indubitável que o destaque do Distrito Industrial, com suas empresas em funcionamento,  é responsável por ponderável parcela das mudanças profundas que se apresenta no panorama com seus 40/50 mil trabalhadores. É um setor de nossa vida que terá de ser conhecido, fortalecido e defendido por todos os amazonenses. A indústria precisa ser verticalizada. Precisamos trazer para Manaus as indústrias de bens intermediários buscando alcançar a meta da substituição de importações internacionais e nacionais integrando e tornando independente definitivamente nosso Parque Industrial transformado em força de exportação para o Amazonas. Precisamos preservar e fortalecer as indústrias tradicionais pioneiras para que possamos preservar e desenvolver nossa agricultura. (...)  Precisamos estar atentos, no contexto dos problemas brasileiros, à incompreensão de alguns setores em face da excepcionalidade da Zona Franca de Manaus e, em nome da verdade e da sinceridade,  devemos estar alertas para o contínuo pinçar das vantagens comparativas do que gozávamos e que permitiram nossa saída do desalentador marasmo de então. Na verdade em diversas investidas contra a Zona Franca de Manaus transformaram os incentivos concedidos pelo estado do Amazonas no mais importante instrumento para a vida industrial do Estado, um atrativo básico para o qual ainda complementamos com nossa força dos industrial, consolidando-a, diversificando-a para que ela torne  irreversível. A indústria, ilustre governador José Lindoso, está confiante no alto descortino de Sua Excelência e do seu ilustre secretariado. Está confiante na superintendência da Zona Franca de Manaus,  na clarividência do Ministro do Interior e do Senhor Presidente da República, João Baptista de Figueiredo, como no alto patriotismo de todo o Ministério Federal. A indústria está confiante nos Senhores Legisladores em todas as Casas de representação popular, como está confiante na força  de trabalho do operariado e  do povo amazonense. A indústria confia em si própria, como força de desenvolvimento e da paz social. Por isso, precisamos estar em sintonia com as demais entidades e, mais do que isso, com os interesses maiores do Amazonas.  É um instrumento através do qual a Indústria prestará ao governo do estado, do município do e do país, suas contribuições intelectuais no estudo e solução dos problemas de nossa responsabilidade." 

 

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