História

COMPARTILHE

Cenas de uma Manaus de antigamente

Por Evaldo Ferreira

24 Out 2019, 12h05

Crédito: Divulgação

Hoje, com um celular, qualquer pessoa tira foto e qualquer momento é motivo para se clicar uma imagem. Mas até pouco tempo não era assim. Só profissionais ‘faziam’ e revelavam fotos. E quanto mais se voltar no tempo, mais complexos ficam os processos para se obter uma imagem revelada num papel.

As primeiras fotos de Manaus surgem no final do século 19 e o primeiro fotógrafo profissional a morar na cidade e imortalizá-la através de suas imagens foi o alemão George Hübner. Graças a ele, e a diversos outros anônimos, ficamos sabendo como era a Manaus do fim do século 19 e das décadas seguintes do século 20.

Quem está fazendo um trabalho de resgate desse material, como nunca foi feito antes, e sem gastar praticamente nenhum centavo é a professora de história Gisella Vieira Braga que, desde 2012 mantém o blog Manaus de Antigamente. É curioso ver como a cidade foi mudando, com prédios seculares, hoje abandonados, ainda no seu apogeu, e vários outros, belíssimos, mansões e palacetes, que acabaram impiedosamente demolidos,   

“Sempre gostei de estudar história, mas a ideia de fazer um blog surgiu por hobby, e continua sendo um hobby até hoje. Eu vou postando conforme vou estudando e compartilhando o material que me chega”, explicou Gisella. 

O sucesso do Manaus de Antigamente foi imediato, e tanto, que Gisella recebe fotos quase que diariamente de pessoas anônimas, pedaços de papel antes perdidos nos álbuns de família.

“Nunca me preocupei em contabilizar o material que recebo, mas me chegam cerca de 10 a 20 imagens semanalmente. Todo esse material me é enviado pelo Instagram, ou e-mail, pois eu uso somente esses dois canais de comunicação. Muita gente também envia livros com fotos antigas”, revelou.

Seguidores ajudam

O importante deste trabalho de Gisella é o resgate de um acervo fantástico de imagens da cidade e sua população, antes apenas publicadas em alguns livros e vistas por poucas pessoas. De outra forma, estas fotos permaneceriam esquecidas em álbuns familiares e, pior ainda, em muitos casos, jogadas no lixo. Agora estão contando um pouco da história da cidade.

“Meu blog é um imenso arquivo, aberto para quem quiser visitá-lo. Tudo que eu resgato, posto no blog”, disse.

Acompanhando as imagens, textos ricos de informações, pesquisados primeiramente no Google, depois em teses de mestrado e doutorado, além de idas da professora à Biblioteca Pública.

“Quando eu não consigo encontrar nada, busco ajuda de dois amigos pesquisadores da história, como eu, Ed Lincon e Fábio Augusto, que me ajudam bastante com as informações”, esclareceu.

Quem é amigo de Gisella no Facebook é abastecido com novas imagens da Manaus de antigamente a cada meia hora.

“Eu deixo as postagens programadas e a cada 30 minutos elas são publicadas no Face”, falou.

Não raro os seguidores da professora a ajudam nas informações sobre as imagens publicadas. Como ela divulga muita coisa das décadas de 1960 em diante, e muita gente desta época ainda está viva, os esclarecimentos vão chegando.

“Pergunto se alguém conhece quem está na foto, que prédio ou local é aquele e as respostas vão surgindo”, esclareceu.

Notícias Relacionadas

Dependendo da imagem, as curtidas podem ir de 300 a quase mil.

 Teatro Amazonas é sempre destaque

“Recebo muitas fotos de descendentes de franceses, italianos e portugueses. Todos contam as mesmas histórias. Seus antepassados vieram para Manaus e, graças à riqueza gerada na cidade pelo comércio da borracha, ficaram muito bem de vida. Alguns permaneceram por aqui, a maioria voltou para as suas terras após a crise econômica iniciada em 1911”, revelou.

Um dos acervos mais preciosos recebido por Gisella são cópias de fotos, de 1901, da família J. G. Araújo, talvez a mais rica família manauara daqueles tempos.

“Mas publico gravuras, também, desenhadas por exploradores e naturalistas que por aqui andaram desde que a Amazônia começou a ser explorada, como as do forte de São José da Barra, do século 18, que deu início a Manaus”, contou.

“Entre as fotos que mais gosto, destaco as da construção do Teatro Amazonas, tiradas a partir de 1893, quando as obras foram retomadas. Como uma da cúpula sendo montada, ou dele, construído, mas ainda com o terreno à sua volta todo na terra, sem as belas escadarias. Mesmo assim, foi inaugurado”, lembrou.

Não por acaso o Teatro Amazonas se tornou símbolo maior de Manaus e do Amazonas. A casa de óperas realmente é magnífica e fascina.

“Uma foto que viralizou, quando publiquei, foi o Teatro nas cores azul claro e branco, ganhas na restauração de 1974. Na mais recente restauração, de 1990, ele voltou a ter sua cor original, essa atual, cor de barro e branco, com as quais as pessoas já se acostumaram”, concluiu.

  


 

Veja Também

Manaus

Cinema amazônico sem estereótipos

23 Oct 2019, 12h50