Agronegócios

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Café genuinamente amazônico 'made in' Silves

Agricultores familiares do município recebem clones do café criado especialmente para o Amazonas

Por Evaldo Ferreira @evaldo.am @JCommercio

06 Ago 2019, 08h56

Crédito: Evaldo Ferreira

Você sabia que, muito provavelmente, está consumindo diariamente café produzido no Amazonas, e café de alta qualidade, desenvolvido pela Embrapa Amazônia Ocidental e Embrapa Rondônia exclusivamente para o clima e o solo amazônicos?

Roque Pereira Lins é o coordenador da ASA (Associação Solidariedade Amazonas), com sede em Silves, cujo objetivo principal é facilitar a vida do agricultor rural.

“Criei a associação junto com a minha filha Cristiane, que mora na Suíça. Periodicamente ela realiza jantares lá para angariar recursos que auxiliam o funcionamento da ASA aqui”, explicou.

Roque é funcionário de uma estatal, apaixonado por agricultura.

“Sempre gostei de ver o trabalho dos agricultores e o que resulta disso. Por isso, em 2015, comprei esta fazenda, aqui na AM 363 (estrada da Várzea), que dá acesso à ilha de Silves, e desde então iniciei o plantio de café”, contou.

“No começo eu não sabia o que iria plantar. Só sabia que não queria uma cultura que estragasse facilmente, como cupuaçu, que plantam muito por aqui, e pelas dificuldades de armazenamento e transporte para grandes centros consumidores, como Manaus, acaba se perdendo. Conversando com técnicos da Embrapa, eles deram a sugestão do café, até porque eles queriam desenvolver um projeto de implementação dessa cultura aqui na região, disse.

Assim foi implantada uma Unidade de Observação, um jardim clonal, em meio hectare na fazenda de Roque, que possui três hectares.

“Jardim clonal é uma área destinada à produção de hastes contendo gemas axilares para enxertia dos porta-enxertos de matrizes de plantas geneticamente superiores”, detalhou.

“Todo o processo foi acompanhado pelos técnicos da Embrapa pra ver se o café era, ou não, viável, mas a planta se deu muito bem”, comemorou.

Safra maior do que a anterior

Oito agricultores familiares da estrada da Várzea receberam os clones do café testado na fazenda de Roque e já começam a colher bons resultados.

“Atualmente 25 mil pés de café estão plantados nessas propriedades, mas estamos abertos a aceitar novos interessados na cultura”, adiantou.

As variedades de café plantados nas fazendas de Silves são o conilon e o robusta, que deram origem ao híbrido BRS Ouro Preto, desenvolvido pela Embrapa Rondônia.

O BRS Ouro Preto mostrou alta produtividade de café beneficiado, resistência à ferrugem e ao nematoide das galhas (um tipo de parasita), boa qualidade de bebida e adaptação às condições do solo e do clima da região amazônica.

As plantas do café conilon se caracterizam pelo menor porte e maior resistência à seca, enquanto as do robusta apresentam aspectos complementares como maior vigor vegetativo, grãos maiores e menor resistência ao déficit hídrico. Plantas híbridas, provenientes de cruzamentos naturais ou direcionados, têm se destacado nas avaliações de campo por expressar as melhores características dessas duas variedades.

Desde que realizou sua primeira colheita, em 2017, Roque só tem a comemorar porque os números têm aumentado ano a ano.

“Em 2017 colhemos 70 sacos, ano passado foram 91. Este ano já realizamos a colheita, 106 sacos e as perspectivas para o ano que vem são as melhores possíveis até porque, pela primeira vez, iremos centralizar aqui na ASA a produção de todos os demais agricultores. Estamos calculando uma safra de 500 sacos”, comemorou.

“O custo para a implantação de uma lavoura de café conilon, incluindo os gastos com sistema de irrigação, é amortizado já na segunda safra. A produtividade média de café no estado do Amazonas é de 15 sacas/ha, mas a estimativa de produção da cultivar BRS Ouro Preto é de 40 sacas na primeira safra, 70 na segunda e 110 na terceira. Seguindo as recomendações técnicas, a planta se mantém produtiva por ao menos 15 anos”, explicou José Olenilson Costa Pinheiro, técnico da Embrapa Amazônia Ocidental.

3corações em Manaus

Todo o café produzido em Silves tem venda garantida. A empresa 3corações, do Rio Grande do Norte, e que desde o ano passado montou uma fábrica em Manaus, compra tudo.

Este ano a 3corações está completando 60 anos. Ela começou em 1959, na cidade de São Miguel/RN, com João Alves de Lima, que vendia café verde. Dois anos depois João passou a torrar e moer grãos, lançando a marca Nossa Senhora de Fátima. Desde então a empresa só cresceu, principalmente a partir de 1984, quando João Alves passou a operação dos negócios para seus três filhos Pedro, Paulo e Vicente. No ano seguinte o café Nossa Senhora de Fátima mudou de nome para café Santa Clara. Em 2002 o Santa Clara se tornou o nº 1 no Norte e Nordeste.

Depois de adquirir marcas por todo o Brasil, no ano passado a 3corações incorporou ao seu portfólio o Café Manaus, fundado em 1956, em Manaus, instalando uma fábrica na capital amazonense e passando a incentivar o plantio do café no Estado.

“Agora estamos testando bananas noutra Unidade de Observação da Embrapa, aqui na ASA. Estão sendo testadas a pacovan, a prata (BRS Japira) e a maçã (BRS Princesa). Em breve começaremos a abastecer Manaus”, garantiu Roque.

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