Opinião

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Brasil despenca no Global Peace Index 2019

Indicadores foram criados em 2007, a partir de painéis com especialistas

Por Jonas Gomes

20 Jun 2019, 09h20

Crédito: Divulgação

O artigo aborda sobre o Global Peace Index (GPI) 2019,  apresenta os países considerados mais pacíficos do planeta, bem como a posição do Brasil neste ranking.

O Relatório GPI 2019 divulgado este ano contém 107 páginas , um estudo minucioso realizado pelo Instituto para Economia e Paz (IEP), uma louvável organização que monitora e propositivamente apresenta meios para os governos desenvolverem o processo de paz em seus planos de governo. O GPI cobre 99,7% da população mundial, está em sua 33a edição, classificando 163 estados independentes de acordo com o seu nível de paz, a partir da análise de 23 indicadores quantitativos e qualitativos, classificados em 3 categorias: conflitos nacionais e internacionais em curso; segurança social e militarização. Os indicadores foram criados em 2007, a partir de painéis realizados com especialistas renomados e são anualmente revisados. Todos os pontos de cada indicador são normalizados em uma escala de pontuação de 1 a 5.

Abaixo, há alguns dos indicadores coletados pelo IEP:

Categoria conflitos nacionais e internacionais em curso: número de conflitos internos; duração dos conflitos internos; número de mortes causadas pelos conflitos internos; número de mortes causadas por organizações externas; relação com países vizinhos, etc;

Categoria segurança social: nível de criminalidade percebida pela população; instabilidade política; impacto do terrorismo; número de homicídios por 100 mil habitantes; nível de crimes violentos; número de pessoas presas por 100 mil habitantes, etc

Categoria militarização: gasto militar em relação ao PIB; número de pessoas armadas por 100 mil habitantes; contribuição financeira para missões de paz da ONU; capacidade de armas nucleares; facilidade de acesso aos armamentos de pequenos portes, etc.

A metodologia pode ser estudada a partir da página 85 do relatório, o qual está organizado em quatro partes: resultados gerais, tendências, impacto econômico da violência e a paz positiva.

Aqui chama a atenção a parte “Paz Positiva”, como sendo a capacidade de uma sociedade em atender as necessidades dos seus cidadãos, reduzindo o número de queixas de forma eficiente sem precisar recorrer ao uso da violência. Gosto muito dessa seção, uma vez que ela captura as atitudes corretas, as instituições e estruturas necessárias para sustentar sociedades pacíficas. Nesse sentido eles criaram um outro índice chamado de Paz Positiva composto por outros 24 indicadores divididos nestes oito pilares: bom funcionamento do governo; ambiente saudável para fazer negócios; aceitação dos direitos dos outros; boa relação com os vizinhos; livre acesso as informações; alto nível de capital humano; baixo nível de corrupção; e distribuição equitativa dos recursos.

Bem, os principais resultados do relatório de 2019 são:

1o) No geral, os dez países mais pacíficos do planeta são: Irlanda, Nova Zelândia, Portugal, Áustria, Dinamarca, Canadá, Cingapura, Eslovênia, Japão e República Checa. Por outro lado os menos pacíficos são Afeganistão, Síria, Sudão do Sul, Iêmen, Iraque, Somália, República da África Central, Líbia, Congo e Rússia;

2o) As cinco regiões que apresentaram melhorias significativas no GPI em relação ao ano de 2018 foram: Ucrânia, Sudão, Egito, Macedônia do Norte e Ruanda. Por outro lado, os locais que apresentaram deterioração significativa no ranking foram: Nicarágua, Burquina Faso (país Africano), Zimbábue, Irã e Brasil;

3o) O Brasil ficou no 116o lugar, apresentou uma pontuação geral de deterioração na ordem de 0,112, o que representa 5,2% em 2019, uma queda significativa de 10 posições quando comparado com 2018 (106o lugar). A piora do desempenho ocorreu principalmente na categoria conflitos nacionais em curso, representando 24,7 % da piora, mais especificamente envolvendo grupos criminosos organizados nos últimos 3 anos. Por exemplo, no relatório eles apontam que vários grupos criminosos do Ceará deram uma trégua na guerra entre eles para se unirem para atacar as forças de segurança e a infraestrutura pública. Além disso, apontaram que em out/18, as eleições foram caracterizadas pelo alto nível de polarização entre os eleitores do PT e do PSL. Chamou a atenção dos pesquisadores a alta taxa de homicídio, os ataques a políticos, bem como os crimes violentos que estão ocorrendo no RJ, em SP e em outras cidades grandes.

4o) a paz tem deteriorado ano a ano em sete dos últimos dez anos. Desde 2008, 81 países se tornaram menos pacíficos, enquanto outros 81 países melhoraram. Em termos de região, a piora maior aconteceu no espaço onde existe a Líbia, Síria, Iêmen, etc. Por outro lado, na Europa há países com bons indicadores de paz, porém nesta região está acontecendo piora em indicadores ligados ao terrorismo, relação entre países e instabilidade política;

5o) países com alto nível de paz obtiveram pontuações mais altas na satisfação da população com seu padrão de vida, com a liberdade de expressão e com sentimento de respeito para com o próximo;

6o) o impacto econômico global com a violência foi de  US$ 14,1 trilhões de dólares em 2018, equivalente a 11,2% do PIB global, o que representaria um prejuízo de US$ 1853 dólares por habitante do planeta. Os dez países com os maiores impactos econômicos devido à violência são: Síria (67% do PIB), Afeganistão (47% do PIB), República Africana Central (42% do PIB), Coreia do Norte (34% do PIB), Iraque (32%), Venezuela (30% do PIB), Chipre (30% do PIB), Somália (26% do PIB), Colômbia (25% do PIB) e El Salvador (22% do PIB);

7o) os dez países com os maiores gastos militares registrados em 2018 (em bilhões de dólares) foram: USA (US$ 649 bi), China (US$ 250 bi), Arábia Saudita (US$ 67 bi ), Índia (US$ 66,6 bi), França (US$ 64 bi), Rússia (US$ 61,4 bi), Reino Unido (US$ 50 bi), Alemanha (US$ 49,5 bi), Japão (US$ 47 bi) e Coreia do Sul (US$ 43,1 bi);

8o) em relação à segurança social, os destaques foram Irlanda, Cingapura, Noruega, Suíça e Japão. Os piores foram Afeganistão, Sudão do Sul, República Africana Central, Iraque e Congo;

9o) em relação aos conflitos em curso, os destaques foram Botsuana, Chile, Uruguai e Cingapura, enquanto Síria, Afeganistão, Iêmen, Sudão do Sul e Paquistão apresentaram os piores desempenhos;

10o) em relação a militarização, os países mais pacíficos foram Irlanda, Hungria, Eslovênia e Nova Zelândia, enquanto que os menos pacíficos foram Israel, Rússia, EUA, Coreia do Norte e França.

O relatório tem uma abordagem científica e deveria ser usado pelos gestores públicos de nosso país, uma vez que o Brasil registrou a 5a maior queda no índice de paz e segurança, despencando 10 posições em relação a 2018.

Finalmente, seria interessante os gestores focarem em políticas públicas para os adolescentes e jovens, usando os oito pilares que promovem uma paz mais positiva, contribuindo para a construção de uma sociedade mais próspera e pacífica, pois enquanto governos apostarem no contingenciamento/cortes de recursos em educação, em C&T&I, no aumento do porte de armas, continuaremos registrando o aumento do crime organizado e dificilmente o Brasil terá algo para comemorar nos próximos anos.

*Jonas Gomes da Silva – Vice Chefe do Departamento de Engenharia de Produção da FT-UFAM – gomesjonas@hotmail.com

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