Opinião

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Boas práticas de Londres para se tornar cidade inteligente

Voltamos ao tema abordando outro modelo criado pelo Fórum de Comunidades Inteligentes

Por Jonas Gomes

15 Abr 2019, 11h24

Crédito: Divulgação

O artigo apresenta as boas práticas da prefeitura de Londres para tornar a cidade a mais inteligente do planeta.

Como fruto de pesquisas no Laboratório de Aprendizagem Organizacional Eureka da FT/UFAM, temos publicado alguns artigos (07 e 24/07/14; 26/09/14; 02 e 09/10/2014) no JC-AM sobre um modelo conceitual para desenvolver cidades inteligentes, criado pelo Dr. Boyd Cohen, aplicado com adaptação e sucesso em cidades como Nova Iorque, Viena, Berlim, Vancouver, Toronto, Paris, Londres, Tóquio, Copenhagen, Hong Kong e Barcelona. Em 18/10/16, apresentamos sugestões para tornar a cidade de Manaus inteligente e em 2018 (25/04; 02, 09 e 16/05) voltamos ao tema abordando outro modelo criado pelo Fórum de Comunidades Inteligentes, apontando a diferença entre cidade e comunidade inteligente, bem como as boas práticas das sete comunidades mais inteligentes do planeta, incluindo locais de Taiwan, Finlândia e Canadá.

Dando continuidade, neste artigo focaremos nas boas práticas de gestão adotadas pela prefeitura de Londres para torná-la a cidade mais inteligente do planeta até o ano de 2050. Para tanto, acesse o site para ter obter o Smart London Together Roadmap, um documento com 60 páginas que dá continuidade ao Smart London Plan 2013, atualizado em 2016 e em 2018 com uma nova abordagem baseada em missões colaborativas, cujas boas práticas são:

1a) formar uma boa equipe e realizar benchmark

Esse lance de divulgar cidade inteligente em época de campanha eleitoral e depois sumir do mapa, tem deixado o manauara desacreditado sobre o assunto. Para evitar que algo tão importante caia no descrédito, um prefeito competente desenvolve uma visão de longo prazo, cria e apoia uma equipe de especialistas no assunto, orientando-os a elaborar o planejamento em conjunto com a sociedade, pelo menos foi assim que aconteceu em Londres, lá o prefeito nomeou uma equipe para o Smart London Team, visando estudar as boas experiências de cidades inteligentes como de Nova Iorque e de Oxford, bem como traçar uma metodologia que permitisse aos moradores participar da construção do plano, acompanhar a implantação e a prestação de contas ao longo do tempo. Um dos escolhidos para liderar a mudança foi o Sr. Theo Blackwell, Diretor Digital para Londres, com longa experiência em gestão da tecnologia, tanto no setor público quanto no privado, razão pela qual recebeu da Rainha no início deste ano, o reconhecimento de Membro da Ordem do Império Britânico, por seus serviços de transformação digital para o governo local de Londres.

2o) planejamento participativo e de longo prazo

O planejamento foi construído por meio de um Roteiro (The Roadmap) participativo que permitiu a equipe promover um tour pela cidade em 80 eventos públicos, compilando cerca de 300 boas ideias advindas de cerca de 2000 Londrinos. Esta fase aconteceu entre janeiro e abril de 2018, envolvendo cidadãos comuns, cidadãos da sociedade civil organizada, da comunidade tecnológica (Universidades, institutos de pesquisas, start ups, empresas, etc) e do setor público.

Em junho de 2018, o prefeito então lançou o Smarter London Together Roadmap como um masterplan contendo objetivos para serem alcançados até 2050, organizados em cinco missões focadas em design, compartilhamento dos dados, conectividade, habilidades e colaboração. Para eles, uma cidade inteligente é colaborativa, conectada e responsiva, por meio da integração de tecnologias digitais e amplo uso de dados para atender as necessidades dos cidadãos.

Este roteiro convida 33 autoridades locais para trabalharem de forma colaborativa para usarem dados e tecnologias digitais para ajudar a implementar sete estratégias estatutárias da prefeitura, focadas em transporte, meio ambiente, saúde, moradia, cultura, desenvolvimento econômico e no plano de Londres.  

3o) transparência e uso de boletins

Para dar mais transparência e manter o cidadão constantemente informado sobre as ações do Smart London Together Roadmap, eles utilizam a abordagem de boletins informativos, chamados de Report Card, por meio do uso on line de uma ferramenta chamada Trello. Um quadro Trello contém uma lista de cartões usados virtualmente pelas equipes para organizar os projetos em qualquer tamanho, facilitando aos gestores e a qualquer cidadão o acesso sobre quem está trabalhando em quê e onde algo está sendo executado.

Neste link você chega aos boletins.   De uma forma bem simples, para alcançar a visão de tornar Londres a cidade mais inteligente em 2050, foram fixadas coletivamente uma série de objetivos organizados em cinco missões:

Missão 1: fornecer mais serviços projetados pelos usuários;

Missão 2: conseguir um novo acordo para dados da cidade;

Missão 3: ter conectividade de classe mundial e ruas mais inteligentes

Missão 4:   melhorar as lideranças e as habilidades digitais

Missão 5: melhorar a colaboração em toda a cidade.

Em cada missão há os objetivos, a descrição, o checklist, as atividades, os prazos, o percentual de execução, as mudanças realizadas, os documentos, etc. Em síntese, o boletim informativo permite aos gestores e aos membros dos projetos atualizarem as informações, bem como aos parceiros e a qualquer cidadão ver o progresso das ações e até sugerir comentários, bastando assinar a plataforma Trello gratuitamente. A edição dos boletins informativos fica sob responsabilidade dos membros do conselho responsáveis pelos projetos;

4o) formação de parcerias com universidades e empresas

A construção do Roteiro não foi feita apenas por alguns entusiastas que sonham em melhorar a cidade, isso geralmente não funciona. Para haver a transformação, é preciso lideranças que pensam a longo prazo, que saiam de seus escritórios, das discussões isoladas, é preciso que  o sonho seja compartilhado, amplamente discutido com a academia, com os gestores de tecnologia, com a sociedade civil organizada, etc. Melhor ainda se tudo isso for liderado por um governante sério, com credibilidade e que aloque recursos para a construção do Roadmap;

5o) registrar as lições aprendidas ao longo do Tour

No caso de Londres, as principais lições aprendidas ao longo do tour foram: a) colocar as pessoas em primeiro lugar e respeitar a diversidade quando for desenvolver serviços digitais ou adotar tecnologias; b) construir confiança e transparência sobre como o público irá usar os dados; c) estar melhor conectado e aberto as novas tecnologias; d) fortalecer a liderança digital em serviços públicos e aprimorar as habilidades dos cidadãos; e) promover colaboração por toda a cidade e compartilhar o que funciona para os cidadãos por meio dos serviços públicos e comunitários.

Finalmente, para quem tem o hábito de sair do confortável escritório e andar nas comunidades, o que ainda se vê em nossa cidade é uma minoria fazendo farra com dinheiro público enquanto centenas de crianças estão sem creches, obras abandonadas, muito desperdício de talento humano, de água, de energia e de alimentos. Assim, o desafio é grande, pois Manaus está muito longe de ser considerada cidade inteligente.

*Jonas Gomes da Silva é Vice Chefe do Departamento de Engenharia de Produção da FT-UFAM – jgsilva@ufam.edu.br







 

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