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Bio-instrumentos e os sons amazônicos de Celdo Braga

Celdo Braga já desenvolveu 30 bio-instrumentos e agora cria o ritmo amazônico, que será lançado no Teatro Amazonas

Por Evaldo Ferreira @evaldo.am @JCommercio

24 Jul 2019, 18h07

Crédito: Evaldo Ferreira

Uma imersão aos sons da floresta amazônica. Assim podem ser definidos os instrumentos, ou bio-instrumentos, produzidos por Celdo Braga, 30 até agora, criados a partir de cuias, folhas e sementes.

Celdo Braga é figura conhecidíssima no Amazonas, principalmente no meio artístico-musical. Nascido na longínqua Benjamin Constant, está em Manaus há 29 anos. É professor, poeta e músico.

Começou a ganhar fama na capital amazonense quando criou o grupo Raízes Caboclas. Ao longo dos anos o Raízes Caboclas cantou e tocou músicas que se transformaram na cara da musicalidade amazônica. E tem sido assim até hoje. As músicas do Raízes são fundo musical para qualquer cena de nossa região. Foi no Raízes que os integrantes, inclusive Celdo, começaram a usar instrumentos feitos a partir de objetos da floresta.

“Eu ‘tocava’ um casco de iaçá (um bicho de casco), que havia encontrado na praia do Pacú, lá em Benjamin Constant, mas aí as pessoas começaram a reclamar: vocês falam de ecologia e usam o casco de um animal como instrumento. Então eu deixei o casco de lado, mas eu o tenho até hoje, já há uns 40 anos”, contou.

Aos onze anos Celdo aprendeu a fazer poesia, em Benjamin, ensinado por uma professora, depois aperfeiçoado no curso de Letras, que fez na PUC, em São Paulo.

“Cada ser humano nasce com um dom. Cabe a ele desenvolver, ou não, esse dom. Eu, por exemplo, pego uma simples folha e, num primeiro plano, vejo uma folha; num segundo plano, subjetivo, ela pode ser transformada em algo, como um instrumento; num terceiro plano, espiritual, eu consigo extrair música dessa folha”, explicou.

Cuias são as preferidas

Depois que saiu do Raízes Caboclas, Celdo criou o Imbaúba (uma árvore de tronco oco), e mais recentemente o Gaponga.

“Gaponga é o som dos frutos e sementes caindo dentro d’água. Significa pescar com som”, disse.

“Quando começamos o Raízes, nossos instrumentos eram o violão, o atabaque, a taboca, o chocalho indígena (arure-ê) e o casco de iaçá”, contou.

Instrumentos exóticos e músicas melodiosas acabaram por se tornar a marca registrada do grupo.

“Quando o Eliberto Barroncas entrou no grupo ele quis introduzir instrumentos feitos com cuias, mas não foram bem aceitos e acabamos por não usá-los. Mal sabia eu que as cuias acabariam por se transformar na minha matéria-prima preferida para criar novos instrumentos, a partir da formação do Gaponga. No Imbaúba introduzimos tambores de troncos de tucumanzeiro”, revelou.

“Mas o meu interesse maior em criar bio-instrumentos surgiu agora, no Gaponga. O João Paulo, percussionista que me acompanha desde o Raízes, queria desistir de ser percussionista. Estava chateado. Eu o convenci a continuar e começasse a criar bio-instrumentos”, falou. “Por outro lado o Eliberto ensinou que esses novos instrumentos deveriam ser muito mais que instrumentos, mas objetos de arte. Aquilo me contagiou e passei a ver um instrumento musical em tudo, principalmente em objetos da floresta, como cuias, folhas, sementes”, completou.

E sons curiosos foram sendo ouvidos a cada novo bio-instrumento. Inspirado no tradicional ‘pau de chuva’, Celdo criou o ‘chuva circular’ onde miçangas dentro de uma meia cuia fazem o mesmo efeito de chuva.

Criando um ritmo amazônico

Duas pequenas semi-cuias formam o ‘peito de moça’, semelhantes a esta parte do corpo feminino, e reproduzem o som de chocalhos. Noutra semi-cuia, ou mesmo um pequeno coco, com um parafuso dentro, surge o coaxar de um cururu. Já com um balão em um de seus lados, a cuia é transformada numa buzina de uma embarcação, dessas que cruzam os rios da Amazônia.

Mais interessante são os sons de animais surgidos dos bio-instrumentos: o sapo kambô, o papagaio moleira, periquitos em alvoroço, tucano, pererecas. E o que dizer do instrumento de quatro cordas parecido a uma arraia?

“Agora estamos trabalhando para criar o ritmo amazônico. Se prestarmos atenção, o canto dos animais tem ritmo. Começamos estudando o kambô, o próximo será o uirapuru, depois o capitão do mato, também conhecido como seringueiro ou fri-frió. Seus cantos virarão músicas e estes serão o nosso ritmo musical amazônico”, contou.

No próximo dia 6 de outubro, junto com a Orquestra de Câmara do Amazonas, no Teatro Amazonas, o Gaponga irá fazer o lançamento da primeira música ao ritmo do kambô. Enquanto isso o Liceu Cláudio Santoro lançou o curso de musicalização infantil em percussão amazônica utilizando os bio-instrumentos e Celdo Braga realiza oficinas nas quais ensina os alunos a fazê-los.

“O objetivo é que o mundo conheça a potencialidade musical de nós, amazônidas, e que nós mesmos aprendamos a utilizar cada vez mais a nossa potencialidade”, afirmou.                

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