Amazônia

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Argemiro, o Baca, é o último dos tilheiros amazônicos

Em Silves e região, as pessoas que constroem canoas e batelões são chamadas de tilheiros, nome que nem o próprio Baca sabe o significado.

07 Ago 2019, 15h13

Crédito: Evaldo Ferreira

Desde tempos que se perderam no tempo as canoas são o meio de transporte dos povos que habitam a Amazônia, antes encavadas em troncos de árvores, quando estes povos ainda não possuíam ferramentas, depois construídas em vários formatos e tamanhos, e até espécies diferentes de madeira. É aí que surge nosso personagem, Argemiro Rodrigues Bruno, o Baca, um simpático marceneiro (ou tilheiro) que mora no bairro do Mucajatuba, em Silves, há mais de 30 anos, sempre na mesma labuta diária de trabalhar a madeira construindo casas, móveis, portas, canoas e batelões. Há muito os botes de metal dominam os rios da Amazônia, mas Baca nunca deixou de fabricar canoas de madeira.

Baca nasceu em Itapiranga, cidade cerca de 50 km, em linha reta, distante da ilha de Silves, há 57 anos.

Tanto Itapiranga quanto Silves são cidades cercadas por águas. 

A primeira, pelo rio Urubu e paraná de Itapiranga, este, ligado ao rio Amazonas; a segunda, cercada pelos lagos Saracá e Canaçari e próxima a vários outros rios, como o próprio Urubu, o Sanabani, o Itapani, o Anebá, o Tatuacá, e o Taiaçú, entre outros. Talvez por isso Baca tenha herdado seu ofício do pai Cassiano Bruno, que por sua vez aprendeu com o avô Rael Rodrigues Bruno.
“Meu pai nasceu em Itapiranga, e meu avô era de Autazes, mas não sei muito sobre meu avô porque eu era bem pequeno quando o conheci. Só sei que ele trabalhava com madeiras, já em Itapiranga, fazendo canoas, e meu pai aprendeu com ele, e depois me ensinou. Não sei dizer se meu bisavô fazia canoas, também”, disse. 

“Quando eu estava com uns 13 anos, morávamos em outro município, São Sebastião do Uatumã, que é próximo de Itapiranga menos de 30 km em linha reta. Foi lá que meu pai me ensinou a fazer canoas”, contou.

“Depois mudamos para Itapiranga e por vários anos trabalhamos lá, com marcenaria, construindo casas, batelões e canoas até que o movimento ficou muito fraco e eu, já adulto, resolvi mudar para Silves”, lembrou.
 
Entre canoas e batelões

Há 35 anos Baca chegou à ilha de Silves e se instalou numa bela área com vista para o lago Saracá. Lá construiu sua casa e montou a oficina, na frente.

“Apesar de meu pai produzir vários trabalhos com madeira, com ele aprendi a fazer somente cascos. O resto, casas, móveis, portas, assimilei olhando os outros fazerem e mesmo observando, depois de feitos. Aprendi fazendo e, mesmo as canoas, aperfeiçoei com o tempo”, falou.

“Não tenho ideia de quantas canoas fiz até hoje, pois nunca deixei de fazê-las. Por que as pessoas compram canoas? Porque são bem mais baratas do que um bote de metal. Uma canoa minha, de cinco metros, custa R$ 500, um bote de metal não sai por menos de mil reais, e aqui, todo mundo precisa de canoa, quem mora na ilha, ou nas comunidades próximas, seja pra se locomover ou pra pescar”, informou. 

“Até hoje a maior embarcação que fiz media 17 metros e recebeu o nome de Santa Isabel. O dono era de Urucará, cidade que fica aqui próxima de Silves, mas foi a única embarcação grande que fiz até agora. As outras foram só canoas e batelões”, revelou.

“O batelão é maior que a canoa. As minhas medem cinco metros de comprimento, enquanto o batelão pode chegar a dez e tem as laterais mais altas, isso porque o batelão é usado para transportar cargas enquanto a canoa, basicamente é utilizada para transportar pessoas”, ensinou.

O ofício acaba comigo
Para construí-las, Baca usa quase as mesmas ferramentas que seu pai, e possivelmente o avô, utilizavam: um enxó, uma plaina, um martelo, uma furadeira e uma serra.

“Acho que a ferramenta mais moderna que eu uso é a furadeira. No tempo deles não tinha energia e como precisavam furar, usavam o arco de pua. Mas comigo não tem problema não. Se faltar energia, eu vou pro arco de pua. Por isso eu produzo mais do que os outros, porque quando falta energia, eles param. Eu não”, riu.

Até hoje Baca trabalha com uma ferramenta que foi de seu pai, uma plaina, que já caiu, quebrou, ele mandou soldar e continua a utilizar.   

“As madeiras que uso são itaúba, louro e angelim, porque são resistentes e maleáveis, fáceis de trabalhar. Geralmente apronto uma canoa em três dias e, dependendo dos cuidados do dono, pode durar dez anos, e até mais, em condições de uso”, garantiu.

Em Silves e região, as pessoas que constroem canoas e batelões são chamadas de tilheiros, nome que nem o próprio Baca sabe o significado. É um ofício que está em extinção porque, desde 1998 (de acordo com a Lei 9.605) só se pode utilizar madeira certificada na produção de embarcações, o que as torna bem mais caras. Antes os tilheiros as tiravam diretamente da floresta, atividade hoje proibida.

Os anos passaram e Baca não evoluiu, trabalhando sob uma pequena cobertura, com equipamentos rústicos, da mesma forma que seus antepassados há décadas, talvez séculos. O ofício de construir canoas e batelões vai morrer com ele.

“Tenho cinco filhos e seis netos. Nenhum deles se interessou em aprender esse trabalho. Não sabem nem como segurar essas ferramentas. O ofício de trilheiro encerra comigo”, previu.

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