Opinião

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Apelar ao Vaticano é enganar o ribeirinho

O Vaticano não vai resolver nada, a culpa é nossa, é minha, dos governos, das ONG′s

Por Thomaz Meirelles

22 Mar 2019, 13h22

Crédito: Divulgação

Dias atrás, na Arquidiocese de Manaus, aconteceu o Seminário "Sínodo da Amazônia: contribuições a partir do desenvolvimento sustentável". Foi mais um seminário para discutir o que já sabemos, e que nada fazemos para mudar a dura realidade da vida de quem preservou 97% da floresta para fazer chover no Brasil e em algumas partes do mundo.

Não fui eu, foi o IBGE que, recentemente, disse que temos 49,2% da população vivendo na extrema pobreza em nosso estado. Isso já vem de décadas, nada muda, só aumenta, aí vem um "novo seminário" com "novos debates" em grupos para encaminhar "soluções concretas" ao Vaticano. Desculpem! Isso é brincadeira! Isso não é demanda para o Vaticano. É nossa! É dever de casa! Já chega de enrolar o habitante do interior do Amazonas.

Os defensores do PIM/ZFM estão cometendo um grande erro ao negociar a intocabilidade da floresta para manter esse modelo econômico que está deixando metade da população na pobreza. Esse tipo de negociação não pode acontecer, pois já existem tecnologias disponíveis para o uso sustentável da floresta. Agir assim é manter a calamidade no interior. Um exemplo do descaso: Nossos extrativistas não recebem sequer o preço mínimo dos produtos amparados Política de Garantia de Preços Mínimos da Sociobiodiversidade - PGPMBio. Aliás, política idealizada e implementada no governo do PT.

Jamais irei ignorar as boas políticas criadas em qualquer governo. O Vaticano não vai resolver nada, a culpa é nossa, é minha, dos governos, das ONG's que se dizem defensoras do desenvolvimento sustentável, mas esquecem do ser humano. A culpa é de todos nós que moramos aqui e pouco ou nada fazemos para mudar essa triste realidade dos nossos extrativistas, ribeirinhos, indígenas e quilombolas. Já chega de discurso bonito e de seminários, vamos agir. Felizmente durante o seminário, o Eduardo Taveira e a Alice Amorim lembraram a necessidade de gerar renda a essa população. 

Os demais, segundo matéria no site do Hiel Levy, focaram exclusivamente na redução da taxa de desmatamento, mas aqui preservamos 97% da floresta, então, aqui o problema não é o desmatamento, mas as pessoas que vivem em condições precárias, com fome. Na matéria divulgada no site do Hiel Levy não encontrei, entre os temas discutidos, a geração de renda. Assim fica difícil acreditar em dias melhores aos ribeirinhos, extrativistas, indígenas e quilombolas.

Felizmente o governador Wilson Lima já determinou à área ambiental do seu governo, inclusive confirmado nas palavras do Eduardo Taveira, mas que precisa ir para a prática, o foco na geração de renda. A PGPMBio pode ser um dos caminhos. Ninguém segura desmatamento com o povo passando fome, doente, isolado e sem renda. O percentual de 49,2% de pessoas passando fome no Amazonas mostra que as ações passadas, se é que foram feitas, não surtiram efeito. Tudo que foi discutido e debatido nos eventos não foram colocados em prática. Apenas discurso, gastos com eventos, viagens e por ai vai.

Outro exemplo: Hoje, o manejador do pirarucu recebe valor menor do que a metade do custo de produção. Isso é justo? Claro que não. Será que no resultado do seminário ficou clara a necessidade de uma pressão no Congresso Nacional para mudar a legislação para incluir produto de origem animal para receber a subvenção federal?  Esse projeto é da Conceição Sampaio. Várias pessoas que participaram desse evento (vi nas fotos) sabem da tramitação desse projeto. Será que lembraram? Ou vão apelar também para o Vaticano agir no Congresso Nacional?

Será que lembraram que a PGPMBio tem recurso federal e que não está chegando ao extrativista de cacau, borracha, piaçava, buriti, andiroba, etc? Será que disseram ao Vaticano que o ribeirinho não tem acesso ao garantia safra nem ao seguro rural? Será que disseram ao Vaticano que o Amazonas não tem o ZEE  e nenhuma portaria do ZARC? Volto a lembrar, somos nós que temos de resolver esses gargalos, não o Vaticano. Se não foi dito, penso que seja melhor parar com todas as atividades econômicas no Amazonas e remunerar a população que escolheu esta região para viver, preservar e fazer chover nos demais cantos do Brasil e do mundo. Uma remuneração justa que nos dê direito à saúde, educação, segurança e lazer a todos, e não apenas uma minoria.

O cardeal Lorenzo Baldisseri, que fez declarações ao Jornal do Brasil, precisa saber que quem empobreceu foi a população que preservou 97% da floresta ao mundo. É nesse empobrecimento que o Sínodo dos Bispos e o  Cardeal deveriam focar a atenção, nas pessoas. Será que o cardeal sabe o que está acontecendo com vários ribeirinhos diante da nova enchente? É justo deixar quem preservou 97% da floresta na miséria?

No Amazonas, temos esse percentual preservado, mas temos metade da população doente e passando fome, mas só se fala em reduzir taxa de desmatamento, e nada de falar em reduzir a taxa da fome, da pobreza, da desesperança, das doenças. O que diz a Assembleia Legislativa sobre esse assunto? E nossos parlamentares federais?

Vamos em frente! Eu ainda acredito em dias melhores!

*Thomaz Antonio Perez da Silva Meirelles, servidor público federal aposentado, administrador, especialização na gestão da informação ao agronegócio. E-mail: thomaz.meirelles@hotmail.com

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