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'Agora é hora de unidade'

ENTREVISTA: Arthur Virgílio Neto, prefeito de Manaus

Por Especial para o JC / Caubi Cerquinho

16 Jul 2018

Crédito: Divulgação/Assessoria

Do alto de uma tribuna, seja no Congresso Nacional , onde viveu a sua vida parlamentar, ou na Câmara Municipal, onde participa anualmente da leitura da mensagem de Governo, ou ainda nos discursos em solenidades, Arthur Neto se caracterizou por ser um dos melhores oradores do seu tempo. Nesses quarenta anos de vida pública (comemorados sexta-feira com uma grande festa), o atual prefeito de Manaus, passou por diversos momentos que ele considera que foram um verdadeiro aprendizado. Ele também ficou marcado por enfrentar o ex-presidente Lula, lhe prometendo uma "surra". Nascido no Rio de Janeiro, ele considera a família fundamental e foi exatamente quando começou a falar sobre as lembranças familiares é que o tribuno incisivo, o guerreiro dos grandes combates se emocionou e chorou, lamentando que seu maior ídolo, seu pai, não estará, fisicamente, na sua festa dos 40 anos de vida pública. Diplomata, deputado federal, ministro da secretaria geral da Presidência da República, líder de Governo duas vezes, líder de oposição no Senado, enfrentando Lula, três vezes prefeito de Manaus. Ganhou e perdeu várias eleições, mas com uma grande convicção ele afirma; "faria tudo outra vez". Antes da festa, o prefeito gentilmente, atendeu com exclusividade o JC.

Jornal do Commercio - Quarenta anos de vida pública, em termos de lembranças, quais as que mais ressaltam nesse momento?

Arthur Virgílio Neto - Lembrar de tudo é lembrar de bons e maus momentos. Mas eu tive muitos mais bons. E nesse momento, olhando para trás vejo a figura do meu pai. Principalmente porque todo mundo dizia para mim quando comecei a minha carreira política. Olha, não vai decepcionar. Você é parecido com o seu pai. No entanto, sempre afirmei, não, meu pai, foi melhor. O que tenho é a pretensão de ser tão responsável quanto ele e tão atento quanto aos problemas do Amazonas. Por conta dessa comemoração tenho recebido muitas fotos que lembram essa minha trajetória. Me mandaram retratos com Mário Covas, com Ulisses Guimarães, Tancredo Neves e até com o Gilberto Mestrinho. Ao vê essas fotos um verdadeiro filme fica passando na cabeça da gente. Fica a lembrança da vontade de sempre querer fazer bem as coisas. Representar bem o Estado. Passei aquele período na Câmara dos deputados, fui ministro da secretaria geral da Presidência da República, líder de Governo duas vezes, líder de oposição no Senado, enfrentei um semideus que era o Lula, sempre procurando honrar o Amazonas. Depois, prefeito três vezes. Penso que minha vida tem sido muito fértil no campo das realizações, do que eu pude fazer até o presente. Do ponto de vista das lembranças que são enormes, que são emocionantes, pertencentes ao meu coração.

JC - Daquele "rapazola" um tanto magricelo, que gostava de pedalar numa Caloi 10, lá Vivenda Verde e que era atleta de Jiu- Jitsu, até o "setentão" Arthur, o que mudou?

Arthur - Muitas coisas, pois o tempo pesa. A gente sempre muda, mas eu não mudei na essência. Na essência continuo o lutador que sempre fui, pois sempre encontro fôlego pra isso. A bicicleta não abandonei, já por causa do Jiu Jitsu, tenho uma cirurgia no joelho esquerdo que não me atrapalha em nada e tenho três cirurgias no joelho direito que me atrapalha e muito a minha mobilidade, embora não dê defeito no meu caminhar, mas continuo sempre uma pessoa ligada ao ar livre e as competições. E não é diferente na vida pública. Tenho até saudades dos tempos em que os votos eram contados manualmente. Era uma competição voto a voto. Lembro do meu pai com muito carinho...(os olhos ficam cheios de lágrimas)... meu pai podia estar aqui agora.

JC - Prefeito, e o futuro?

Arthur - Quero viver muito bem com os meus netos, com quem tenho muita proximidade. O filho do Bisneto, o Arthur Meirelles é o meu parceiro. Ele me chama de mano eu também o chamo de mano. É o meu comentarista de futebol. Ele me dá todas as instruções sobre táticas e o que acontece no futebol brasileiro e na Copa do Mundo e até na Libertadores. Ele é irmão de uma outra princesa que lembra minha filha mais velha que é a Nicole e por falar em amor lembro ainda Carol que é a coisa mais linda do mundo. Uma loira e outra morena. Ambas são lindas. Tenho mais dois filhos. O Juliano que é um geniozinho, um mestre em matemática aplicada, tá indo para o Japão, ele é formado pelo Instituto Militar de Engenharia. Tenho o Arthur Bisneto que todos conhecem,homem inteligente e um orador como poucos. Lembra muito o avô. Saudades da minha mãe que me estimulava muito, sempre me deu muita força. Família é fundamental e eu não me arrependo desse passado de lutas e nem desse passado de sacrifícios. Se tem uma coisa que posso afirmar com tranquilidade é que eu faria tudo de novo.

JC - E o Arthur cidadão, o que espera do Brasil?

Arthur - O Brasil está vivendo um tempo esquisito. Um tempo em que os extremos estão ameaçando a tranquilidade da democracia brasileira. Tempo em que nós temos um governo federal com uma equipe econômica bastante eficaz, bastante cheia de propostas. Mas, não faltam problemas na área política, com vários ministros acusados de muitas coisas, de muitos ilícitos, ao mesmo tempo ainda tem o Congresso travando muitas votações, não deixando as reformas necessárias andarem. Fui muito mais aguerrido contra o presidente Lula, mas quero registrar um número a meu favor: em mais de setenta por cento das votações que ele propôs, eu votei com ele. Cerca de trinta por cento eu votei contra por que entendia que não era a favor do país. Mas aquilo que eu achava que não prejudicasse a Zona Franca, que não prejudicasse Manaus, eu votava a favor. Eu era contra o mensalão, o petrolão e fui o primeiro a pedir uma CPI para investigar os desmando na Petrobrás. Ainda derrubamos a CPMF. Tenho orgulho daquele tempo, pois não era fácil fazer oposição ao líder popular que era o Lula. Aqui no Shopping fui abordado por uma senhora que me disse, meu filho gosto tanto de você, mas deixa o Lula em paz, eu respondi pra ela dizendo, minha senhora , ele é que não nos deixa em paz, e a senhora ainda vai conhece quem é ele. Um dia, não sei quando. Ele era um verdadeiro semideus. Tem uma foto de quando o Lula foi julgado pela ditadura militar eu era o único político que estava lá. Não me arrependo, pois entendia que ele estava sendo injustiçado por uma ditadura,mas lamento o que ele fez com a própria biografia dele.

JC - E qual é a esperança para os netos e bisnetos?

Arthur - Eu espero que o Brasil possa alcançar saúde financeira, esse é o princípio de tudo. É o meu princípio na Prefeitura de Manaus. Tudo que a gente faz é em função dessa saúde financeira, pois é a partir daí que se faz obras, por isso, trabalho com uma avareza enorme quando se trata de dinheiro público. Agora vamos entrar numa campanha, não mais de reduzir despesas, mas sim contra o desperdício, pois assim vai parecer que se aumentou a receita de tanto que a gente vai lucrar evitando o desperdício. E vamos continuar a buscar o cumprimento de metas. Agora vou vir com um método científico pra acabar de uma vez com o desperdício e o dinheiro render muito mais para as obras. Manaus já virou um canteiro de obras. É só andar pelos bairro para perceber isso.

JC - Qual o principal problema da sua administração?

Arthur - Hoje, tem sido o transporte público. No primeiro Governo, não. Lá atrás nós saímos do último lugar para ficarmos atrás de Curitiba. Hoje, temos a questão da mobilidade urbana que envolve muito mais do que só transporte. Isso em sido sim um calcanhar de Aquiles. Nós precisamos transplantar Manaus, de qualquer jeito para um sistema de alta tecnologia, como é o caso do BRT. Essa é a nossa solução, pois os outros modais servirão de alimentadores desse grande sistema e estamos lutando muito por isso, apesar dos contratempos, nós não vamos desistir, pois a população merece um sistema em que possa deixar o veículo em casa para pegar o transporte público. Esse calcanhar de Aquiles será revestido numa grande conquista do povo de Manaus.

JC - Omar, Amazonino ou Davi, quem o senhor seguirá?

Arthur - Por enquanto ainda não estou falando de eleição. Estou na vibe de curtir os 40 anos de vida pública, mas tenho grande estima pelo presidente da Assembleia, deputado David Almeida. Nos tratamos com muita distinção. Tenho uma relação restabelecida com o governador Amazonino, com quem já tive muitos embates, mas hoje vamos entrar juntos para fazermos obras na cidade, aproveitando o verão. Ele entrará com mais de trezentos milhões e eu com mais de cem. Serão quase quinhentos milhões para benefício da população. Restabeleci relação com ele, chega de brigar com ele, agora é hora de unidade, de colocarmos a cabeça simplesmente nos problemas de Manaus e do Amazonas. E o senador Omar Aziz, a quem nesse momento de dor, quero demonstrar minha solidariedade pela perda de sua mãe, é um grande amigo pessoal. Ele já deu provas de sua amizade e eu também já dei provas significativas da minha amizade por ele, porém nesse momento acho prematuro qualquer opinião sobre eleição porque quero fazer as coisas bem seguras. Estou ouvindo pessoas, ouvindo companheiros, estou me aconselhando. Estou caminhando com muita humildade como se eu não conhecesse o caminho e se tem alguns que eu não conheço mesmo, tenho que aprender. Ainda tá cedo.