Opinião

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Agora é guerra

Os fundamentos do ressentimento são universais e podem ser observados em muitos países

Por Breno Rodrigo

28 Ago 2019, 13h18

Crédito: Divulgação

A elevação da tensão do período eleitoral, depois de um momentâneo intervalo, foi reanimada recentemente no ecossistema político brasileiro. Sim, a radicalização do conflito entre a esquerda e a direita – melhor dizendo: entre as forças progressistas do antigo regime e a emergente elite neoconservadora – é a torrente do momento que vai perdurar por muito tempo na orientação geral da competição política no país.

Tivemos a mais conflitiva eleição de nossa história republicana. Conflitiva em todos os sentidos e vejamos apenas uma evidência disso: um ex-presidente preso deu as cartas e coordenou uma campanha de dentro do cárcere; o líder das pesquisas, esfaqueado num atentado em praça pública, coordena a sua campanha num leito hospitalar. Num certo sentido, a política do conflito funcionou mais ou menos assim: generais trancafiados exaltam os seus liderados numa trama psicológica de escala nacional para conquistar corações e mentes.

A vitória eleitoral de Bolsonaro, num primeiro momento, buscou a retórica da reconciliação nacional. Tal intento durou pouco tempo e soou artificial demais para os modos do velho capitão da FFAA. Sabia-se, desde lá, que a principal promessa de campanha seria levada em conta nas escolhas públicas do presidente: leia-se, responsividade eleitoral; traduz-se, promete na campanha eleitoral, cumpre no governo. Dito de outra forma, Bolsonaro tentaria implodir um dos grandes símbolos da governabilidade da Nova República: o presidencialismo de coalizão e seus vícios.

Uma jogada ousada! O homem comum é e sempre foi revoltado com a classe dirigente e com os mecanismo que certificam a sua sobrevivência: as instituições políticas. Em qualquer pesquisa de opinião, no Brasil e no mundo afora, é recorrente a ideia segundo a qual as leis oriundas das regras constitucionais são falhas e não punem os verdadeiros criminosos, especialmente os ricos e os donos do poder. Bolsonaro conseguiu entender o espírito do tempo e a psicologia das massas no processo de realinhamento dos astros. A leitura do cenário foi acertada e buscou uma combinação perfeita de ressentimento generalizado e a universalização das novas tecnologias da informação. 

Os fundamentos do ressentimento são universais e podem ser observados em muitos países. A maioria da população considerou-se esquecida e traídos pelos seus representantes. Os debates sobre minorias e grupos socialmente excluídos, sob a nuvem do politicamente correto e espiral do silêncio, que desequilibrou juridicamente a percepção sobre a ordem social, não foi apenas um momento episódico ou uma coincidência. Muitos políticos, preocupados com lealdade do seu eleitorado de minorias, com bandeiras de luta específicas e extremamente organizados em suas bases, deixaram o homem comum de lado; agora esquecido e entregue ao seu próprio destino. A revolta contra as políticas identitárias – a nova roupagem da luta de classes para os nossos dias – é a causa predominante do ressentimento das massas.

É de se observar também que as novas tecnologias da informação – Facebook, Twitter, WhatApp, Instagram, entre outros meios de comunicação instantânea – criam novas sociabilidades, que incluíram e deram voz a uma legião de cidadãos de diferentes geografias. Agora, finalmente, o “mundo é plano”, na feliz expressão do jornalista norte-americano Thomas Friedman. A profecia da aldeia global se cumpriu plenamente diante dos nossos olhos. Hoje, qualquer cidadão munido de um smartphone e acesso à internet, pode ser uma voz nas novas mídias sociais e, assim, fazer disso uma ferramenta a serviço de um projeto pessoal ou coletivo de poder. Os filtros usuais – partidos tradicionais ou movimentos sociais – deram lugar aos movimentos de massa descentralizados e espontâneos das redes sociais.

A compreensão dessa nova dinâmica do poder é de suma importância para meditarmos sobre os conflitos políticos de hoje e de amanhã. E, é claro, sobre como podemos resolver parte do problema que criamos. Sendo bastante objetivo, acredito que teremos um acumulo de incessante de crises políticas provocadas pelo choque entre governo e oposição, esquerda e direita, elites identitárias e massas amorfas. O que testemunhamos nessa guerra é apenas um amargo aperitivo do que virá, possivelmente, com mais frequência. Agora é guerra é o prelúdio de uma democracia pulsante, conflitiva e, quem sabe, caótica. Para não enlouquecer, prefiro seguir a dica aristotélica de Albert Einstein: “Na confusão, busca a simplicidade. Na discórdia, busca a harmonia. Na dificuldade, está a oportunidade”.

*Breno Rodrigo é cientista político

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