Opinião

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A vingança dos iconoclastas

O início do movimento iconoclasta foi um marco dessa tensão entre o velho e o novo, a modernidade e tradição

Por Breno Rodrigo

28 Abr 2019, 11h10

Crédito: Divulgação

Não é de hoje que experimentamos intensos conflitos políticos e institucionais no Brasil e no mundo. Aliás, conflitos são inerentes aos processos políticos mais amplos: não há política sem conflitos de ideias, interesses e instituições mediadoras e amortecedoras. Da organização humana mais primitiva até as formas mais complexas e sofisticadas da sociedade e da cultura, as instituições buscam equilibrar e moderar os conflitos entre os atores políticos, a fim de se impedir uma anomia generalizada. Em poucas palavras, as instituições são as regras do jogo e, por conseguinte, importantes para tornar qualquer ordem humana possível.

O início do movimento iconoclasta foi um marco dessa tensão entre o velho e o novo, a modernidade e tradição, a ordem e o caos. Os fundamentos do movimento político-religioso, que atingiu o coração da cristandade e causou o primeiro grande cisma do catolicismo (católicos do Oriente e do Ocidente), foi de fato a revolta contra as imagética cristã – ícones e imagens da Fé Cristã expressos na obras de arte, catedrais, esculturas e pinturas. A revolta iconoclasta contra as simbolismo católico podia ser entendido também como uma revolta contra a ordem cosmológica em sentido amplo. Assim, pode-se dizer que os efeitos trágicos da revolta iconoclasta são sentidos até os dias de hoje.

Fide et ratio, diziam os padres eruditos da escolástica medieval. Ratio sine fide, assim nos colocamos, sem fé nem exagero, como filhos da crise espiritual lá produzida. O totalitarismo racionalista logo perdeu-se nos labirintos do irracionalismo e foi dominado pela maleficência como o imperativo de uma realidade puramente egóica. O homem moderno carrega consigo o espírito iconoclasta, pois é alimentado por um eterno estado de desordem e confusão que imagina poder um dia corrigir utilizando apenas os instrumentos da razão confusa. Nos seus devaneios, somos um dom Quixote contra os desmandos dos moinhos de vento.

As incontáveis tentativas de se recriar a ordem política brasileira é só mais um capítulo desse drama de nossa alma coletiva. Insistimos teimosamente no caminho da subversão da ordem, no golpe de sorte, na esperteza. Passados trinta anos de um desenho constitucional que bem ou mal garante a normalidade das regras do jogo – o tal falado Estado democrático de direito – ainda insistimos na crença de uma malandragem infalível e, se Deus quiser, redentora.

O espírito iconoclasta foi evocado ainda no período eleitoral e, para isso, basta lembrar da postura dos candidatos das duas chapas. De um lado, o candidato a vice-presidente Hamilton Mourão que chegou a propor uma constituinte exclusiva composta apenas por “notáveis”. Do outro, o programa de governo petista explicitava uma proposta de reforma constitucional aos moldes do bolivarianismo venezuelano (um regime que já escancarou a sua face tirânica).

Direita ou esquerda insuflavam-se contra a ordem política numa clara tentativa de colapsar o experimento constitucional de 1988, uma vez que a vitória de um grupo sobre o outro implicaria, numa vaga hipótese de vitória, uma vantagem estratégica dominante de longo prazo. Seria de fato a explicitação de um duradouro e imprevisível projeto de poder, quiçá arbitrário.

Quixotescamente, insisto na tese segundo a qual o status quo (a estrutura da realidade) é preferível a qualquer mudança irruptiva. Por si só, os movimentos revolucionários são destrutivos e produzem invariavelmente desorientação política e espiritual. Daí a sabedoria por trás da prudência e do ceticismo, os melhores conselheiros para o jogo do poder: o caminho das reformas pontuais são marcas indeléveis da virtude e da justiça, onde a felicidade consegue aprisionar o sofrimento numa clara tentativa de reduzir as agruras do mundo.

Vencer o espírito iconoclasta que está em nós é um desafio hercúleo, onde derrotas e vitórias, muitas vezes, não significam apenas derrotas e vitórias. O sistema de freios e contrapesos, esta fabulosa criação de engenharia constitucional da democracia madisoniana, permite o equilíbrio competitivo e conflitivo das forças antagônicas no tabuleiro político. A destruição da imagética da ordem democrática (ou pior, da ordem democrática em si) é e sempre será um fardo a mais nas costas nos mais vulneráveis. É pedagógico lembrar de um velho ditado: “de boas intenções o inferno está feio”.        

*Breno Rodrigo é cientista político

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