Opinião

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A uva passa e a manada

Toda essa verve em defesa da boa e velha uva passa mergulha também na reflexão sobre as redes sociais

Por Fred Novaes

12 Mai 2019, 19h33

Crédito: Divulgação

Nesta semana, uma singela reflexão, banhada de um certo saudosismo, sobre a boa e velha uva passa, um coringa na cozinha com mil e uma utilidades, me fez pensar sobre o chamado comportamento de manada. Essa também velha e boa teoria nietzschiana ganhou corpo e realidade nestes tempos de consolidação das redes sociais como plataforma para existência virtual de um sem número de assustadoras criaturas.

A reflexão me veio ao analisar a expurgação da delicada uva passa da culinária nacional depois de uma séries de memes e virais, estimo que no período do Natal, condenando a utilização do ingrediente como tradicionalmente é feito naquele período. Típico caso de comportamento de manada impondo uma opinião a partir da viralização de um conceito, independentemente do valor ou da realidade de sua premissa.

Vivendo numa era guiada por algoritmos, dentro de bolhas especulativas, muitos têm conduzido suas opiniões e seus conceitos em torno das chamadas tendências, trends da vida que moldam a alma e o ânimo de articulados palpiteiros de ocasião. Esses mesmos que dominam as ferramentas comunicativas destes novos tempos.

E a pobre uva passa foi mais uma vítima desse carrilhão. Desprezada e relegada a uma memória que os influenciadores - verdadeiros luzeiros destes novos tempos - associam ao que é velho, datado e cafona.

Mas a uva passa, assim como muitos termos amaldiçoados nos dias de hoje, não tem todo esse mal e nem qualquer outro bem. Ela continua sendo a boa e velha uva passa. Uma excelente, porque é boa e barata, alternativa para oferecer uma nova camada de sabor a pratos como uma farofa, uma maionese ou um salpicão. Simples assim. Infelizmente não tenho talento e nem ciência para tornar a minha constatação um meme ou um viral.

Mas toda essa verve em defesa da boa e velha uva passa mergulha também na reflexão sobre as redes sociais e seus famigerados algoritmos que fizeram com que muitos, como eu, passassem a olhá-las sem aquela velha calça desbotada, sem aquela velha inocência do início desse namoro virtual.

Como bem argumenta Jaron Lanier, músico, escritor e especialista em realidade virtual, existem muitas razões para, no mínimo, olhar com desconfiança para as redes sociais. No seu livro “Dez argumentos para você deletar agora suas redes sociais”, Lanier não faz como muitos palpiteiros e influenciadores para tratar do tema a que se propõe. Estudioso do assunto e conhecedor do âmago do funcionamento das redes digitais, o autor carrega de referências na defesa dos seus dez argumentos.

Sem a pretensão de resenhar o livro neste texto, resumo a análise no argumento um. Nele, Jaron afirma que o usuário perde seu livre arbítrio ao ser engolido pelo algoritmo que determina sua timeline e o aprisiona dentro de uma bolha. Muitas vezes sem perceber, a pessoa que um dia foi um ente autônomo nas decisões sobre o conteúdo que antes acessava agora tornou-se apenas um perfil a ser alimentado por uma “inteligência artificial”.

Por essas e por outras, tenho passeado cada vez menos pelas praças virtuais, muitas delas tão minadas de ódio e de desrespeito que não contribuem para a nossa desejada saúde mental. Também sinto saudade da velha e boa uva passa que sempre se fez presente nos meus natais. Espero que toda essa viralização não contamine o nosso futuro. E que o nosso cardápio seja livre para os mais diversos ingredientes, mesmo aqueles que alguns consideram fora de moda.

*Fred Novaes é publisher do Jornal do Commercio

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