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A rica e rara coleção de formigas amazônicas do Inpa

A coleção possui 25 machos da espécie Martialis heureka, a mais rara do mundo

Por Evaldo Ferreira

03 Abr 2019, 14h18

Crédito: Letícia Misna

Quando você vê formigas na sua casa, qual sua primeira reação? Matá-las ou deixar que sigam seu caminho em paz? Pois saiba que os mirmecólogos as coletam, uma a uma, para estudá-las. Isso mesmo. Uma a uma, às vezes oriundas de um ninho que pode chegar a ter 10 mil indivíduos vivendo em seu interior.

No Inpa (Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia) a dra. Itanna Fernandes é mirmecóloga e desde 2012 auxilia na curadoria da coleção de formigas do Instituto.

“É importante que um instituto de pesquisas tenha uma coleção biológica como essa, para mostrar a história desses indivíduos, onde viveram, ou vivem, como vivem, e se deixaram de existir”, explicou.

Os acervos biológicos mais antigos do Inpa possuem mais de 50 anos e já testemunharam alterações de grande porte na biota amazônica, como a construção das hidrelétricas de Balbina, Tucuruí, Belo Monte e rio Madeira, onde imensas áreas de floresta foram alagadas.

“Esses acervos trazem o registro da biodiversidade de áreas que nunca mais recuperarão a sua diversidade natural, sendo os únicos testemunhos da existência de várias espécies extintas localmente”, acrescentou.

Itanna não sabe quando exatamente começaram a montar a coleção de formigas do Inpa, mas ela vasculhou documentos antigos e descobriu que, na década de 1980, chegaram os primeiros exemplares coletados. Na década de 1990 a coleção foi oficialmente criada.

Martialis heureka, símbolo de Manaus

Atualmente a coleção de Formicidae deve reunir ao menos 15 mil exemplares alfinetados, distribuídos em 11 subfamílias das 17 viventes no mundo. Outra parte do acervo, mergulhada em álcool (via úmida), possui uma quantidade ainda não calculada de exemplares, podendo chegar a dezenas ou mesmo centenas de milhares de indivíduos.

“Os indivíduos mergulhados em álcool ainda não foram catalogados e o ideal é que permaneçam assim, pois, a qualquer momento lhes pode ser extraído o DNA”, disse.

Em dezembro passado, nove mil formigas montadas em alfinetes, distribuídas em 13 subfamílias, foram incorporadas à coleção.

“Essas formigas pertencem à fauna brasileira e peruana, obtidas durante as inúmeras expedições científicas realizadas no decorrer do meu mestrado e doutorado. Dentre esses indivíduos, há representantes do gênero Syscia roger, 1861, até então registrado apenas para a Colômbia e que está em processo de publicação”, contou.

Já a coleção de via úmida recebeu aproximadamente 58 mil formigas provenientes do monitoramento ambiental da Usina de Santo Antônio, no rio Madeira, durante as fases de pré e pós-enchimento do reservatório da hidrelétrica, coletadas por Itanna e pelo pesquisador Jorge Souza.

“Nosso trabalho consiste em ir para a área que será alagada e determinar se faremos coleta qualitativa ou quantitativa dentro de uma área determinada. Feito isso, escolhemos os ninhos e realizamos a coleta”, contou.

Itanna Fernandes é mirmecóloga e está na curadoria da coleção de formigas
 

Desde 2009 Itanna vem ampliando e aperfeiçoando o trabalho de identificação e classificação das formigas, tendo a coleção recebido nesses dez anos representantes de outras duas subfamílias, a Agroecomyrmecinae carpenter, 1930, e a raríssima subfamília Martialinae Rabeling & Verhaagh, 2008, por sinal, essa subfamília foi criada a partir da descoberta de uma nova espécie, a Martialis heureka, que bem poderia receber o título de mais um animal símbolo de Manaus (como o Sauim-de-coleira), pois até agora ela só foi encontrada em Manaus e suas imediações.

Formiga de 100 milhões de anos

A subfamília Martialinae é endêmica da região amazônica, e uma única operária da espécie Martialis heureka foi encontrada por acaso no terreno de experimentos da Embrapa, na AM 010, em 2003, passando a ser considerada, a partir de estudos publicados em 2008, a espécie mais rara dentro da mirmecologia (ciência que estuda as formigas), inicialmente descrita com base nessa única operária, de cor amarela, cega, vivendo exclusivamente debaixo da terra e medindo 1.2m.

“Através de estudos do DNA desse único indivíduo, que está na USP, descobriu-se que a espécie existe há uns 100 milhões de anos, ou seja, é a espécie de formiga vivente mais antiga na Terra, e vivendo em Manaus”, garantiu.

Em visita ao Inpa, o pesquisador americano Brendon Boudinot (especialista em machos de formigas), descobriu que uma série de 25 machos existentes na via úmida da coleção do Inpa (coletadas em 1985 por Bert Klein), pertenciam à espécie.

“A descoberta desses indivíduos tornou a coleção de invertebrados do Inpa a maior detentora mundial de representantes da Martialis heureka”, informou.

Em 2017, pelo monitoramento e o banco de dados obtidos com seus estudos, Itanna recebeu um prêmio dado pelo GBIF (Global Biodiversity Information Facility), na categoria Dados Ecológicos, sendo considerado o melhor banco de dados do planeta.

“A coleção de formigas do Inpa tornou-se notável recebendo inúmeras visitas científicas, além de pedidos de empréstimos e colaborações. Esperamos uma procura ainda maior pelo acervo, incentivando gerações presentes e futuras no estudo da mirmecofauna”, concluiu.