Opinião

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A história da operadora de caixa

Imagine um gerente de loja com orientação prática da rotina do dia a dia, distribuindo tarefas e responsabilidades

Por Cíntia Lima

23 Jul 2019, 16h39

Crédito: Divulgação

Num tempo passado eu observava atentamente uma operadora de caixa trabalhando, uma jovem entusiasmada com a nova oportunidade de trabalho, de forma cortês e educada conduzia cada uma das compras do cliente como se embalasse junto os seus sonhos, as oportunidades de encher-se de experiência e boas referências para que num futuro breve pudesse contar sua história de luta e superação a partir de suas próprias conquistas e mérito. 

Era como se eu pudesse ler cada um de seus pensamentos, estampados no rosto cuidadosamente maquiado para causar uma boa impressão, através do seu sorriso de gratidão somados a uma agilidade e dinamismo de quem já sabe que boas ações precisam combinar com bons resultados.

Aquela moça destacou-se ainda mais no meu olhar quando comecei a olhar para os caixas, ao lado direito e esquerdo do dela, e depois mais para uma lado e mais para o outro, e mais e mais, até que minha vista já havia percorrido todos os outros caixas e em nenhum pude perceber a mesma vontade, energia e presteza observados na moça do caixa número 7. 

Miha curiosidade naquele momento era entender o que acontecia ou o que aconteceu com cada uma daquelas pessoas que estavam no caixa, no mesmo dia, na mesma hora, no mesmo lugar, recebendo o mesmo salário, o mesmo estímulo, realizando a mesma tarefa, com posturas tão diferentes. O que aconteceu com cada um dos operadores de caixa daquele lugar que apenas a de número 7 era capaz de inspirar confiança, de fornecer a sensação de que eu era bem vinda, de mostrar o esforço necessário para tornar a minha experiência no supermercado uma hora agradável de compras. 

Naquele momento, minha fila andava e minha vontade era correr para fila do caixa número 7 e dizer para aquela jovem o quanto ela estava fazendo a diferença, o quanto eu realmente gostaria que ela mantivesse a mesma garra e o mesmo olhar, que ela fosse forte o suficiente para que não se corrompesse com o sistema e fosse contaminada, mas que tivesse  uma vitalidade interna que contagiasse e fizesse a diferença e no futuro breve com certeza eu ouviria falar dela em um outro nível.

Essa chama interna é que nos conduzirá para grandes realizações e eu realmente esperava que esta bela jovem pudesse durar para além do período de experiência e que sua trajetória fosse fundamentada na estrutura, que pudesse fazer a diferença a partir de hoje e deixasse marcas no amanhã. Eu não consegui esperar o atendimento dela para falar e saí com uma sensação boa de esperança e com minha missão ainda mais renovada de que cada pessoa que posso ter a experiência de contribuir com o desenvolvimento do meu trabalho, poderá tocar mais um cliente ao longo de uma cadeia que jamais conseguirei contabilizar, mas que já será uma grande contribuição para o universo.

Como este supermercado não ficava próximo do meu caminho, não fiz compras lá por muito tempo e confesso que a imagem foi se apagando com o tempo, embora a experiência nunca mais pudesse ser esquecida. O nome disse é legado, e foi o que esta moça reforçou em mim. 

Imagine que incrível um gerente de loja que fundamenta suas ações em atitudes corretas, em seus processos alinhados e focados para resultados, com uma agenda lotada de atividades que são orquestradas com um senso de priorização inteligente, sem perder o olhar para as pessoas, baseado em valores e princípios que respeitam todos ao seu redor? 

Imagine um gerente de loja com orientação prática da rotina do dia a dia, distribuindo tarefas e responsabilidades correspondentes a cada uma das competências mapeadas na equipe para que pudesse realmente ter o melhor das pessoas do seu grupo? 

Imagine um líder que corrige e cobra com firmeza sem que as pessoas se sintam agredidas, mas compreendam que cada uma das palavras foram sinceras e justas e merecem atenção?

Então, eu encontrei este, digo esta gerente, 2 anos depois do dia em que entrei naquele supermercado da moça do caixa número 7 e tive a oportunidade de realizar um treinamento para gestores e lá estava ela na turma, com o mesmo sorriso e o mesmo tipo de olhar que não esquecemos com facilidade. 

Eu soube nos bastidores, porque nessa altura eu já queria saber da trajetória. Aquela jovem, assumira a liderança da loja com 1 ano de empresa, depois de inúmeros elogios dos clientes, entregas corretas de trabalho, voluntariados para ajudar em outros processos, comprometimento e responsabilidade pontual com suas obrigações, horas a mais de estudo após o seu turno, consciente de seus diretos, mas cumpridora de seus deveres, e sim, sofreu represálias. Operadoras de caixa mais antigas questionaram porque ela. A equipe inicialmente sabotou algumas de suas ações e tantos outros eventos de objeções e dificuldades. No entanto, com mais 1 ano estava promovida a gerente, com um entusiasmo e maturidade de quem entendia o tamanho da responsabilidade e disposta a continuar aprendendo.

Quando voltei para casa, as palavras do livro de Max de Pree ecoaram com tanta força e alegria em minha mente: “A primeira responsabilidade de um líder consiste em definir a realidade. A última, em dizer obrigado. Entre as duas, ele deve tornar-se um servidor e um devedor. Isto resume o progresso de um líder habilidoso”.  

E ao relembrar desta frase e da história da bela operadora do caixa número 7, que se chama Bianca, algumas lições eu mesmo tirei para mim ao escrever este texto: 

Quantas vezes nos conformamos com a condição atual e nos mergulhamos em problemas como se “ser o caixa” fosse algo pior ou fosse a única opção para o resto da vida e carregamos um fardo como se viver fosse apenas sobreviver e tornamos as rotinas chatas e cansativas, como se todos que passam na nossa frente, repetidas vezes, carregassem em suas sacolas os sonhos que deixamos partir? 

Quantas vezes possibilidades estão a todo momento batendo em nossa porta, vestidas de desafio e ao invés de abraçá-las, agradecendo a oportunidade de “precificar” com valor de crescimento cada um desses degraus, esquecendo que o que faço todos os dias é plantar as sementes dos frutos que colherei amanhã e ter a oportunidade de saboreá-los, eu simplesmente deixo a semente secar reclamando do solo?

Por fim, mas não menos importante, eu não tenho a resposta da pergunta que gostaria de ter feito à Bianca naquela ocasião do nosso primeiro encontro. Ensaiei perguntando de crianças na rua, pelo que elas gostariam de ser lembradas no futuro, e poucas foram capazes de responder, mas acredito que se não soubermos responder essa pergunta aos cinquenta anos, teremos desperdiçado uma vida.

No fim das contas, os lucros e ganhos da experiência da Bianca não são apenas gráficos, números da quantidade de produtos vendidos, velocidade de abastecimento da loja, % de satisfação de clientes. Os lucros na história da Bianca são invisíveis, mas perceptíveis. Muitos “ganhos” não conseguiremos colocar em gráficos, mas são ganhos que tem transformado pessoas em profissionais melhores, pelo próprio exemplo dela. Certamente não “fecharemos” o caixa e depositaremos no banco o acumulado de dinheiro obtido no negócio, mas acumularemos riqueza no coração de todas as pessoas que passaram e passarão na nossa história. E isto, começou com um “criar a própria realidade e agradecer por servir e ser servido”.

Eu me lembro dela e continuarei a me lembrar por muito tempo.  

E você, pelo que você quer ser lembrado? 

*Cintia Lima é psicóloga, master coach e mentora organizacional - cintialima@coachcintialima.com - 92 981004470

 

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