Opinião

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A dor é inevitável, mas o sofrimento é opcional

Afinal, cada ser humano é único, particular, singular

Por Cíntia Lima

24 Mai 2019, 11h57

Crédito: Divulgação

Estava viajando semana passada e tive a oportunidade de encontrar com uma pessoa que fazia muito tempo que não nos falávamos e no meio da conversa começou a comentar sobre um amigo em comum, e, com expressão de raiva e fala cheia de rancor, iniciou um discurso que caminhava para denegrir a imagem desse nosso “ex amigo”.

Digo iniciou porque não deixei que ele completasse a primeira frase, argumentando que não seria interessante ter uma visão unilateral de uma situação em que não me caberia avaliar, muito menos receber a carga emocional de uma história do passado, que não era minha e com a qual não poderia fazer nada para ajudá-la.

Digo “ex amigo”, porque entendi naquela ocasião, que aquele já não era mais amigo deste meu amigo e o quanto este estava ressentido ou mesmo magoado a ponto de transformar em ódio uma relação que eu sabia ter sido de muitos momentos positivos e lindas histórias para contar.

Eu não sei você, mas já estive nas três posições em algum momento na vida. Uma, a de escutar a raiva de alguém sobre uma situação que não tem relação nenhuma comigo. Outra, a de alguém que já esteve profundamente magoada com uma pessoa que foi tão próxima e tão importante. A última, de alguém que queria encontrar uma pessoa para desabafar a raiva, mesmo que ela não pudesse fazer nada, a não ser apoiar a minha dor e reforçar meu estado de vítima.

A começar pela última. Esta foi a que aprendi a lidar primeiro e talvez ajude você de alguma forma. A melhor maneira de entender a necessidade de contar é a busca de alguém que nos apoie, nos ajude, nos acalente e concorde que fomos injustiçados, que não merecíamos, que foi um absurdo ou qualquer coisa parecida com a comiseração que não precisamos. Há muitos anos aprendi que conviver com esta dor e a espalhar por aí não mudará o passado e para qualquer que tenha sido a situação, ainda assim foi a melhor forma que o outro encontrou para lidar no momento. Perdoar será o único caminho que me deixará livre para viver uma nova história, considerando todos os aprendizados da relação ferida.

Também é importante lembrar, que por mais que eu me veja como vítima, ainda assim existe o outro lado e todo um processo que foi estabelecido para o cenário acontecer. Assim como a pessoa que escuta não pode entender a cena toda; e raramente fará um julgamento imparcial; considerando que a fala que escuta é apenas a minha e tudo o que não preciso é o reforço positivo sobre um peso que carrego, e que me impede de evoluir.

A outra posição é a de ser aquela pessoa que já esteve magoada e ferida, que procurava um ombro amigo para colocar-me no colo e apoiar-me incondicionalmente. Venho aprendendo que nem todas as pessoas, em todas as ocasiões, em todo o tempo da relação permanecerão iguais em sua fidelidade e cumplicidade. Planos mudam, expectativas são reajustadas, feridas são abertas, ou seja, ao longo de uma relação, tanto eu quanto o outro podemos mudar de opinião, seja para buscar outra forma de fazer, encontrar novos amigos ou qualquer outra transformação que nos faça se afastar e mudar de rumo.

Claro que a mudança de rumo não representa tanto problema, pelo menos não era, ou não foi, o que mais me causou dor em alguns rompimentos. A sensação de ter sido enganada, traída, ferida em minha confiança, desrespeitada ou qualquer outra situação que confrontem os meus valores pessoais, me causaram maior dano emocional e consequentemente maiores aprendizados. São eles que levo e hoje já não me permito associar a ausência de valores iguais aos meus em outras pessoas com o sofrimento em mim.

Eu sempre penso no lar em que fui criada, nas condições morais que fui educada, na forma como o relacionamento dos meus pais são exemplo para mim e meus irmãos, os professores que tive a oportunidade de ter em minha formação, a relação amorosa e harmoniosa com meus avós, tios e primos, a doutrina cristã desde a minha mais tenra infância e tantas outras condições que forjaram um caráter e um estilo de personalidade que me fortalecem e me permitem entender que nem todas as pessoas terão a mesma percepção que eu, seja em condições melhores, iguais ou piores de formação. Afinal, cada ser humano é único, particular, singular e alguns deles podem, mesmo sem querer, causar uma ferida em mim, só não conseguirão deixar em mim a mágoa, pois como diz o ditado: “a dor é inevitável, mas o sofrimento é opcional”!

E assim sigo fazendo o melhor que posso com a pessoa que me tornei, conquistando e atraindo pessoas maravilhosas para minha vida, de acordo com os valores que estão em mim e em algumas vírgulas desta história perdoando, e espero que, sendo perdoada pelo o que não conseguirei ser.

A última, aquela que escuta a raiva de alguém sem ter nada a ver com a história. Ah! sem dúvida, esta interrompe a conversa porque se não é comigo e nem para mim, não preciso, não posso e não devo escutar. E você pode perguntar, e como psicóloga? E como Coach? Bem, certamente nestes dois papéis, o processo nunca será no corredor, nunca será na mesa de um restaurante despretensiosamente, nunca será desassociado de um objetivo concreto e nunca será sobre o outro, sempre será sobre você e o que você faz com o que te acontece.

*Cintia Lima é psicóloga, Master Coach e Mentora Organizacional - cintialima@coachcintialima.com - 92 981004470

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