Opinião

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A Amazônia no centro do mundo e na periferia do Brasil

Por Cieam

01 Ago 2019, 10h14

Crédito: Divulgação

Este programa de desenvolvimento – cuja efetividade e oportunidades foram confirmadas pela FGV, uma das instituições mais respeitadas do Brasil – deveria receber mais atenção e respeito da gestão federal. Respeito em formato de atitudes não de prosopopeia para mistificar nossa biodiversidade, nossos minerais e recursos hídricos. A apologia da Amazônia, cantada em verso e prosa pela tutela federal, transformada em último jardim do mundo, não pode ser ceifado fora dos padrões de sustentabilidade que a economia da Zona Franca de Manaus trabalha há 52 anos. Estamos protegendo o Banco Genético na expectativa do Brasil acordar algum dia. E temos defendido que a Lei permite manejar 80%, uma forma de explorar renovando os estoques naturais. Jamais o desmatamento em curso. “Um país que mata sua floresta mata sua alma. Mas, no século 21, um país que mata sua floresta também mina seu interesse nacional”, diz o jornal espanhol El País, com uma manchete que nos traduz fielmente. “A Amazônia no centro do mundo e na periferia do Brasil”. E não se trata aqui de satanizar governo A ou B. Historicamente eles se revezam na negligência e não há novidade nessa equação do assopra e bate. No governo anterior de Michel Temer, ele pôs um mapa de minérios abundantes na Amazônia Oriental e foi mundo a fora colocar a Amazônia a disposição de mercado. O atual governo procura um sócio para administrar a Amazônia, ao menos reconhecendo para o mundo que o Brasil do Planalto Central não tem condições de administrar sua floresta. Por isso, discursos podem merecer aplausos mas só podem ser levados a sério com atitudes.

Consenso liberal de Washington

A economia do Brasil, à luz do Consenso de Washington, desde os anos 80, sob a batuta de Ronald Reagan, passou a ser determinada pelo governo norte-americano, intelectuais e empresários daquele país. No artigo, Consenso de Washington: A Visão Neoliberal dos  Problemas Latino-Americanos, o diplomata e economista, Paulo Nogueira Batista, que serviu o governo militar e os primeiros anos da abertura democrática, põe a boca no trombone: “Ressuscitar a proposta neoliberal sessenta anos (da 1ª Guerra Mundial) depois só pode ser visto como revolucionário apenas no sentido astronômico da palavra, na medida em que significa uma volta completa de 360 graus aos velhos usos. Tudo muito de acordo com a visão cada vez menos aceitável – e o desafio ecológico aí está para comprová-lo – de que os valores econômicos são os fundamentais da sociedade, aos quais se devem subordinar quaisquer outros, cultural ou religioso, um ponto no qual convergem o neoliberalismo e o economicismo marxista, adversários figadais em tantas outras questões”.

“O Brasil nos trata como Colônia”

Era o que gritava o Comandante Militar da Amazônia, em 2013, Eduardo Villas-Bôas, para a mídia paulista, numa célebre entrevista à Folha. “O que ocorre é que, em pleno século 21, o país não completou sua expansão interna. Temos metade do nosso território a ser ocupado, integrado à dinâmica da sociedade. A Amazônia, como não está integrada ao país, não há conhecimento no sul da sua realidade, seu potencial. É como se fosse uma colônia do Brasil. Ela não é analisada, interpretada, estudada e compreendida numa visão centrada da própria Amazônia. Isso nos coloca numa posição periférica”. O general foi líder da última geração de generais que atuaram na região. Nós estamos sob a mira do Primeiro Mundo há mais de 5 séculos. Eles sabem o que temos e o que fazemos. Há dois satélites americanos sobre a Amazônia desde que inventaram esse recurso de observação. Sem ufanismo mas também sem ingenuidade, precisamos filtrar esses olhares, mapear parceiros e identificar os meramente ambiciosos. Alguns jornais, sabe-se lá a serviço de que,, aqui não importa, conseguem traduzir esse sentimento comum de quem aqui vive. E não adianta sentar e negociar apoio. Não há Interlocução nessa pauta. Somos o país das Águas, 20% da água doce e do banco genético da Terra e, sobretudo, meros exportadores de recursos líquidos para os cofres da União.

Os números não mentem

Chegou atrasado o desempenho da ZFM, digo, economia do Amazonas, na recente e tumultuada visita das autoridades federais à floresta. Enquanto a crise arrefece cresce a  arrecadação federal deste Estado. Matéria do JCAM desta terça-feira 30, descreve em detalhes o desempenho. No mês de junho, a soma de tributos, receita previdenciária e recursos não administrados pela Receita Federal, passou de R$ 1,11 bilhão (2018) para R$ 1,41 bilhão (2019), subindo 27,03% comparando com 2018. No andar dessa tendência, os R$ 14,5 bilhão serão superados com muita folga. Em todo o país. o recolhimento de impostos, contribuições, taxas federais e receita previdenciária em todo o país avançou 8,21% em preços correntes, ao totalizar R$ 119,95 bilhões (2019) contra R$ 110,85 bilhões (2018). Proporcionalmente, recolhemos, para os compulsivos cofres da União, três vezes mais que a média das contribuições estaduais. Para um país quebrado pela contravenção, o Amazonas não passa de uma galinha dos ovos dourados, generoso em suas ofertas e agachado na expectativa das contrapartidas. 

*Esta Coluna é publicada às quartas, quintas e sextas-feiras, de responsabilidade do CIEAM. Editor responsável: Alfredo MR Lopes. cieam@cieam.com.br

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