Saúde

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Samu tem maca retida em alguma unidade hospitalar neste momento

Por Caubi Cerquinho

05 Ago 2019, 08h54

Crédito: Divulgação

A sirene corta as ruas de Manaus, anunciando que alguém precisa de socorro. O trânsito carregado e engarrafado, procura contar com a solidariedade dos motoristas que procuram sair da frente de uma ambulância. Todos sabem que, nesse caso a pressa tem que ser amiga da perfeição. A luta pela vida, envolve, máquina e seres humanos que buscam sempre cumprir a missão de salvar vidas. É nesse contexto, nessa luta diária pela sobrevivência que encontramos o Serviço de Atendimento Móvel  de Urgência, mais conhecido como SAMU.  O serviço que já está instalado em Manaus há onze anos,   funciona 24 horas por dia com equipes de profissionais de saúde, como médicos, enfermeiros, auxiliares de enfermagem e socorristas que atendem às urgências de natureza traumática, clínica, pediátrica, cirúrgica, gineco-obstétrica e de saúde mental da população. Com a incorporação de mais 24 ambulâncias, entregues na última quinta feira,  de acordo com a diretora de Enfermagem do SAMU,Elen Assunção, vai ser possível diminuir o tempo de resposta pela metade. Isso significa dizer que da chamada, se deve levar em torno de 15 minutos, até o SAMU chegar. Na conversa com o JC, a diretora confirma que o SAMU recebe em média mil chamadas/dia. Mais de 20% dessas chamadas – aproximadamente 200/dia – são trotes. Entre 50% e 60% são chamadas que não se enquadram em atendimento por ambulância e outras recebem orientação por telefone. Das mil chamadas, o SAMU atende, efetivamente, em torno de 150 por dia. 

JC – Qual é a estrutura atual do SAMU?

Hellen Assunção -  Hoje nós temos onze bases descentralizadas pela Cidade  de Manaus. Nessas bases, são quase mil servidores com diferentes funções. Além disso, nós temos uma estrutura de ambulâncias de suporte avançado e suporte básico de vida. Dependendo do tipo de ocorrência que a população necessita, é disparada uma ambulância para esse fim. A unidade de suporte avançado de vida é uma ambulância  tipo UTI. Ela é composta por profissionais condutor socorrista enfermeiro e médico. Nós temos atualmente 24 ambulâncias desse tipo. A Unidade de suporte básico de vida é um nível intermediário, composta por um condutor socorrista e um profissional de enfermagem habilitado para esse fim . São quatro viaturas desse modelo. No caso dos servidores, todos são especializados por meio de cursos de qualificação profissional. Um bom exemplo é o curso de atendimento pré-hospitalar, onde se ensina como imobilizar, como colocar uma prancha. Enfim, nós seguimos o protocolo do Ministério da Saúde. Na nossa estrutura ainda temos em sete bases, 14 motolâncias. São elas que devido ao nosso trânsito que está sempre carregado, chegam com mais facilidade ao lugar da ocorrência. Chegando, eles fazem os primeiros procedimentos, estabilizam o paciente e esperam, se for necessário, a ambulância para o procedimento total.

JC – Diretora, como reconhecer o tipo de ambulância que vai mandar para o atendimento

Hellen Assunção – Essa escolha depende da informação que nós recebemos por meio de uma ligação no número 192. Por isso, é sempre bom ligar quem estiver na cena do ocorrido. Quem liga 192 é questionada para dizer se o paciente está respirando, tem alguma lesão.?. Como principal pergunta se pede da pessoa para ela descrever o que está vendo. A partir dessas informações primárias, o médico regulador vai identificar qual o tipo de ambulância ele vai mandar. 

JC – Diretora, vocês ainda recebem trote?.

Hellen Assunção – Infelizmente, sim. É frequente nós atendermos esse tipo de chamada. Das nossas chamadas diárias, cerca de vinte a trinta por cento são de trotes. E são os mais variados tipos. Por exemplo, tem criança que liga na brincadeira, tem pessoas que querem apenas conversar. Tem gente que liga até para simplesmente “cantar” as atendentes.  Algumas ligações se consegue identificar, outras não. No caso de crianças, normalmente, nós retornamos a ligação para os pais e contamos o ocorrido. Isso é uma coisa muito séria. Já aconteceram casos de nós enviarmos uma ambulância tipo UTI e não ter nenhuma ocorrência. Para se tentar evitar isso, é que nós perguntamos de quem liga. Algumas vezes conseguimos saber que era trote, pois as informações eram truncadas, confusas. 

JC – Diretora, nem sempre vocês conseguem chegar a tempo. Como fica o estado psicológico de vocês?

Hellen Assunção – uma perda é realmente muito difícil. Infelizmente  faz parte de nossa rotina aqui no trabalho. Quando é uma criança a dor é maior ainda (voz embargada) e ninguém nunca esquece essa ocorrência. Por outro lado, também se torna inesquecível aquelas que a gente consegue salvar. Não é tão comum, mas já teve gente que veio aqui na base agradecer, pelo atendimento de um parente ou conhecido. Com essa renovação de frota, nós estamos muito felizes, pois nós vamos poder chegar mais rápido para o atendimento. Nós vamos diminuir o tempo de resposta, com isso, salvar uma vida ou ainda diminuir uma sequela.

JC – Diretora, as ambulâncias do SAMU continuam servindo de leito hospitalar?

Hellen Assunção – Infelizmente, essa situação ainda continua, é comum. Em Nossas reuniões discutimos que hoje temos uma boa frota, diminuindo o tempo resposta, mas, vamos continuar com as chamadas “macas presas” ou retidas, por que não existem leitos de apoio suficientes em nossos hospitais e principalmente nos nosso prontos-socorros. Agora, neste momento, em alguma unidade hospitalar nós temos uma “maca retida”. E ela serve não só como leito, mas com paciente internado na própria ambulância. Esperamos que o Estado resolva esse problema, pois a nossa parte estamos fazendo.

JC – Diretora, o motorista que está no seu veículo, pode ajudar.?

Hellen Assunção – Esse é um dos apelos que nós fazemos todos os dias e sempre que tivermos oportunidade. Essa consciência de tentar deixar o caminho livre para a ambulância passar, é fundamental. Para nós, quanto mais rápido o SAMU chegar, mais chance se terá para salvar vidas. Importante salientar que nossas maiores ocorrências, são de acidentes de trânsito, principalmente de motocicletas. Sendo assim, o motorista precisa saber que ele pode ajudar, junto conosco, a salvar alguém que, assim como ele, pode ser um motorista. Mas, aqui se atende todo mundo. Transferências entre hospitais, pacientes clínicos e até doentes mentais.

JC- Diretora, e os motociclistas?

Hellen Assunção – No caso dos motociclistas, nós temos hoje uma parceria com o “Programa Vida no Trânsito”, aonde nós fazemos uma orientação aos mototaxistas, em conjunto com o Centro de Direção da empresa  Moto Honda da Amazônia para que esses condutores tenham mais cuidados quando estão dirigindo. Sempre que possível, estamos aconselhando a fazerem o curso de direção defensiva. 

JC – Diretora, todo cidadão deveria ter conhecimento dos primeiros socorros?

Hellen Assunção – Sim. Nós também orientamos para que as pessoas comuns saibam o que fazer no caso de um acidente doméstico. Por exemplo, nós deveríamos estar aptos, em nosso lar, para fazer uma massagem cardíaca, verificar uma pulsação. São procedimentos que todos deveriam conhecer, mas, infelizmente já perdemos muitas vidas dessa maneira. Já perdemos crianças engasgadas. Existe uma manobra que feita de maneira correta, pode salvar uma pessoa que esteja engasgada. Outra preocupação é com os suicídios entre os adolescentes. Tem muita gente precisando de ajuda. Pra terminar faço dois apelos de suma importância para toda a sociedade. O primeiro é que os motoristas sempre tentem permitir a passagem da ambulância, pois assim podemos diminuir o tempo de resposta. O outro é que as pessoas não passem trote para o SAMU.

Elen Assunção 

IDADE: 48 anos 

QUALIFICAÇÃO: Formada há 25 anos em enfermagem ocupa atualmente o cargo de Diretora de Enfermagem do SAMU Manaus

EXPERIÊNCIA: Funcionária pública municipal concursada, com 11 anos de SAMU  

ÁREA DE ATUAÇÃO: Saúde 

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