Opinião

COMPARTILHE

Esquecemos os Ribeirinhos!

Acredito que o governador Wilson Lima vá colocar em prática as promessas de campanha para o setor primário

Por Thomaz Meirelles

26 Fev 2019, 15h28

Crédito: Divulgação

Estamos diante de uma nova e preocupante enchente. A Defesa Civil do Amazonas já declarou situação de emergência nos municípios de Guajará, Ipixuna, Eirunepé e Boca do Acre. E vem mais. Semana passada, o deputado estadual Dermilson Chagas promoveu audiência pública para discutir o que poderá ser feito para amenizar o sofrimento do ribeirinho que novamente, repito, novamente será atingido pela subida das águas perdendo a produção que serviria para o consumo da família e venda do excedente. Em síntese, mais uma vez o caos total bate à porta do ribeirinho que foi esquecido pelos últimos governos que só priorizaram a defesa do Polo Industrial de Manaus, e que deixaram o estado com 49,2% de sua população passando fome. Exemplo desse abandono do ribeirinho é que, desde 2002, o governo federal opera um programa chamado Garantia Safra. Em 2013, a presidenta Dilma estendeu esse programa ao Amazonas, mas precisou da adesão do governo estadual, que não foi feita até hoje. Infelizmente, Omar, Melo, David e Amazonino não assinaram o termo de adesão a esse programa que pode viabilizar R$ 850 reais ao ribeirinho atingido pela enchente. Sei que o valor é baixo, mas muito mais eficiente nessas adversidades do que ficar esperando as cestas de alimentos. Aliás, esses 850 podem ser sacados nas agências lotéricas da CAIXA de qualquer município. Nenhum secretário de produção desses últimos governos, nenhum deputado estadual e nenhum parlamentar federal ao longo desses seis anos conseguiu sensibilizar a “Compensa” a assinar o termo de adesão confirmando o distanciamento dos governadores do setor primário. Essa é a prova concreta do descaso desses governos com o ribeirinho, com o interior do estado. Acredito que essa ausência de defesa e de prioridade decorra do fato do ribeirinho não fazer doação em momentos eleitorais, apenas vota, diferente do que acontece com algumas indústrias do Polo Industrial de Manaus que recebem total atenção de governadores e de alguns parlamentares.

Nem ZEE, nem ZARC, nem GARANTIA, nem SEGURO

Como ajudar nosso ribeirinho em termos de produção rural se nosso estado é o único sem ter o Zoneamento Econômico Ecológico finalizado, nenhuma cultura amparada pelas Portarias do Zoneamento Agrícola de Risco Climático, não aderiu ao Garantia-Safra e sem o Seguro Rural. Além disso, ocupamos o último lugar no acesso ao crédito rural, portanto, não há muito o que fazer com o produtor rural que, infelizmente, vai perder o pouco que produziu com tanto sacrifício. É triste, preocupante, mas a pura verdade. Acredito que o governador Wilson Lima vá colocar em prática as promessas de campanha para o setor primário que inclui os temas acima citados e, também, criar pequenas estruturas de beneficiamento da produção regional na abandonada Central de Abastecimento de Iranduba. Já passaram três governadores e nada fizeram com essa estrutura que foi inaugurada às vésperas das eleições de 2014 só pra enganar o produtor rural, só para eleger o candidato do governador.

O que resta fazer?

Acredito que a Defesa Civil deva praticar os mesmos atos do passado, ou seja, distribuir ranchos, água, filtros, colchões, entre outros itens, aos municípios atingidos. Outra ação que entendo como necessária e pode amenizar a perda de alguns itens regionais seria intensificar as compras públicas por meio do PAA, PREME e PNAE, incluindo as compras pelo Exército, Marinha e Aeronáutica que possuem orçamento generoso e que são obrigadas a comprar da agricultura familiar (mínimo de 30%). Além disso, penso que o IDAM vá intensificar a distribuição de sementes ao interior. A liberação de financiamento, via agentes financeiros, poderia ser uma saída, mas com critérios para não aumentar, ainda mais, a inadimplência. Vamos colocar a CAIXA pra trabalhar nesse momento, já que tem feito muito pouco no crédito rural no Amazonas. Apesar da baixa aplicação, BB, BASA e AFEAM estão bem à frente da CAIXA em termos de aplicação. Entretanto, o que observo é a ausência da CAIXA até dos debates. Isso não pode continuar, fica a dica. Outro fato que me chama atenção é a passividade dos nossos prefeitos, sem ação, sem rumo, sem iniciativa, sem conhecimento, sem interesse em conhecer as políticas públicas que podem ajudar seus municípios, seus ribeirinhos, o Garantia-Safra é um desses exemplos. E os fundos internacionais que apoiam a preservação, o que farão para socorrer esses ribeirinhos? E as ONG´s ambientalistas? E os artistas famosos que defendem, com razão, a intocabilidade da floresta. Farão alguma coisa para socorrer esses verdadeiros heróis que seguraram 97% da floresta em pé no Amazonas? Ou ficarão apenas nos bonitos discursos de emprego e renda com sustentabilidade, e o ribeirinho de bolso vazio?

*Thomaz Antonio Perez da Silva Meirelles, administrador, servidor público federal aposentado, com especialização na gestão da informação ao agronegócio. E-mail: thomaz.meirelles@hotmail.com

Veja Também

Artigo

Sobrevida da Zona Franca de Manaus

26 Feb 2019, 14h48